26.4.18

desprender

Acendi uma vela, respirei fundo e disse seu nome. A luz trêmula brilhava e se contorcia, agitada com o batismo e talvez incrédula com a grandeza do ato que sua pequenez encarnaria. Penso no primeiro momento em que te vi, no primeiro beijo e no ultimo beijo e nos beijos entre eles. Meu deus, tantos beijos. Me transporto para o dia em que talvez eu tenha me apaixonado sem ainda saber disso. Me movo pelas memórias e elas se movem fora de controle. Quase real, te vejo aparecer na cama, braços abertos, olhos fechados, comprimidos pelas bochechas. E como a luz de um vaga-lume, você some e reaparece pelos cômodos. Acredito te ouvir bater no portão ou ligar o chuveiro. Estremeço e me embrulho com o que ainda posso lembrar do seu perfume doce, da sua voz amável, do seu caminhar, da sua mão na minha, dos risos, olhares, abraços, suspiros, sonhos. E então, de súbito, decido não me render e terminar o que comecei. É como tentar flutuar no meio de uma queda livre. Respiro tão profundamente quanto posso, contudo ainda preciso de muito mais ar. Sem fôlego, deixo ir o apego, desaprisiono nossas cordas e exorcizo o fantasma do seu amor. Esfrego as mãos no rosto, estou tão cansado. A chama se desfaz com um sopro, o calor se dissipa por minha pele e o pavil se apaga aos poucos.