18.11.07

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Vou tirar você de casa. Pôr um desses narizes engraçados e fazer umas mímicas bobas. A gente vai por aí pra encontrar todo mundo, conversar um tempo.
Vou dirigir a cento e oitenta, fazendo curvas abertas, sorrindo igual um louco; Vou pôr as caixas de som no banheiro, pras gotas tremerem antes de cair no chão. Vou te levar café na cama, quando você não for pro trabalho. Amarrar seus cadarços e beijar seus joelhos. E quando você não dormir, contarei uma das minhas historinhas macabras, com as quais você sempre se encolhe. Eu fico rindo à toa. Eu vou te abraçar, às vezes, sem motivo aparente.

Estou lutando pra não esquecer o seu rosto...

Infantitude II

Da cozinha, onde colocava as jarras d'água na geladeira, ela ouviu o agitado anúncio no rádio. As mãozinhas finas responderam involuntárias.

Invadiram a cidade, continuou a voz chiada. Tomaram de refém um orfanato, assegurando, assim, a estadia forçada; assaltaram os supermercados e reviraram as farmácias; pararam o trânsito com pneus em chamas e outras barricadas. Estavam cruelmente armados, todos os homens daquela milícia bestial (...), adjetivava o locutor.

Era inevitável. Breve, arrombariam a porta, rasgariam os travesseiros, pisoteariam o carpete - pensou vividamente. Quebrariam a porcelana de casamento, também os vasos de flores.

Decidiu ligar para o ex-marido e se despedir, enquanto era tempo. Ainda o amava, se convenceu. No caminho foi até a janela. Abriu um filete da persiana.

Parecia um dia bonito.

1.11.07

Acústicas IV

Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive , os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.

João Guimarães Rosa.

Infantitude I


Um ambicioso avião de caça. Suas bombas destruiriam a parte leste do continente e um rastro cósmico de poeira e vidro pairaria no ar.

Antes da explosão o tempo pararia.
Depois, nada mais.

O planeta tremeria por dias e noites. Ao fim da primeira leva de medo e insegurança, todos saberiam que ele continuava lá, acima das nuvens, rondando e preparando sua mira. Os sinaleiros tocariam insistentemente, a mesma balada, alarmando a multidão.

Os amantes fugiriam para os abrigos e lá seus filhos nasceriam.