30.6.12

Guelras


Ela falava do fundo do mar. Da pressão, do escuro e do frio. Das ondas subaquáticas, dos embates sísmicos nas profundezas e toda uma série de fenômenos que não existem na superfície. Se encanta com os seres que brilham no escuro e outras criaturas fantásticas. Monstros marinhos escondidos nas fissuras de abismos.

Imersa, seu mergulho é alucinante. Não há ar suficiente para voltar. Teríamos que desenvolver uma nova forma de respirar, um novo corpo para nos sustentar e uma nova mente para lidar com o vazio abissal. Mas, e nessa hora ela suspira, ela diz que estamos ancorados no continente com nossos corações cheios de nós, amarrados. Nossos olhos cheios de desejos, ancorados. Tudo que temos são ondas, areia e espuma.

19.6.12

Queimar


“Fire Starter.”  It’s a hand-held video-game. No one knows how Endsville, the city of devils, was created, but as soon as it appeared, it started to grow, and slowly eat up the world.

You are an agent of Cantide, the god of the black flame, and you must stop Endsville from destroying the world. Your only weapon is flame: matches, lighters, and fire-bombs. Get the weapons, outsmart the firefighters, hide from the police, torch the city, and purge its demons.

But you must be careful; you cannot burn everything. If the entire city burns down, there will be no place to live. Thus, the battle is hopeless:  there is no final victory. The only thing you can do is burn and burn and burn.Your highest goal is to receive the personal blessing of Cantide, the god of the black flame.

Mamimi - Firestarter, FLCL

16.4.12

Descongelar


Primeiro o abraço. Então fecho os olhos, aperto os braços ao seu redor e cruzo os dedos, desejando no seu ouvido qualquer coisa boba. Como se sorte tivesse alguma coisa a ver com a gente. Um pássaro canta, alça voo. Circula, plana e some.

Faz frio, mas usamos roupas leves. Tremendo, estamos no topo de uma montanha. Abro a boca, levanto a cabeça, ponho a língua pra fora. Flocos de afeto, falo de boca cheia. Você ri porque também sente o gosto.

Ergo as mãos e faço riscos imaginários no ar. Escrevo seu nome no céu e as estrelas que apontei brilham satisfeitas com o batismo de uma nova constelação. Fica escuro, você diz que não tem medo. Sua presença me aquece.

7.3.12

Proibida

Me proíbam de abortar. Não me deixem fazer uma tatuagem, de fazer mais um furo na orelha, trespassando a cartilagem. Me proíbam de xingar, de tentar suicídio, de dirigir alcoolizada, de brigar na rua, de fumar de madrugada, de entrar na internet. Me parem quando tentar pôr o volume no máximo ou quando deixar a luz acesa ao sair do quarto, a pia derramando água. Me proíbam, me parem se eu fugir de casa, se eu for mal na universidade. Proíbam meus gritos. Não me deixem entrar pra esquerda. Proíbam meu "revoluir". Contenham urgentemente minhas loucas manias, todas as poesias e os meus sonhos febris. Me proíbam, porque assim quem sabe luto. Assim quem sabe, proibida, enxergue a liberdade.

27.2.12

Ambivalência

É estranho quando uma pessoa que antes dividia toda a vida com você muda tanto a tal ponto que, talvez em breve, você não a reconheça. Você a amava, porém tudo que ela tem para dar é um discurso repetitivo sobre os velhos e bons momentos. Agora as ações são descoladas do que ela sente, de um jeito trágico e incoerente. Ela se trai, de certo modo. E você não pode mais se aproximar porque também se trairia.

Encontrei esse cara, ele tinha um rosto familiar - mas onde eu moro todo mundo tem. Estávamos em um dos poucos lugares que vende cerveja gelada de madrugada, depois do toque de recolher. Ele tinha uma voz entorpecida, lenta. Estava chovendo forte. Começamos a falar de pessoas que vão embora. Ele tinha mesmo um ar de abandono. Engraçado. Em outros tempos ele não passaria de um bêbado e eu o ignoraria. Dessa vez, o olhava nos olhos e me senti extremamente cúmplice. Engraçado.

Um amigo dele, que obviamente admirava, acabou mudando muito. Ele não sentia raiva, embora admitisse carregar algum ressentimento. Então, depois de fazer uma crítica social aos valores e ao modo de vida hegemônicos, que bêbados adoram fazer, ele me pediu pra contar uma história sobre mim, alguma coisa que achasse importante dizer naquela hora.

Pensei um pouco e falei sobre uma amiga que estava indo embora e sobre a festa de despedida dela, onde passei menos de 5 minutos - da qual tinha acabado de sair. Contei dessa amizade em particular e sobre como a distância acabou se transformando numa constante com um monte de outras pessoas. Talvez até tenha sido polido demais. Provavelmente, mas quando eu terminei ele assentiu, bebeu um gole de cerveja e apertou minha mão dizendo, bem sério, "um dia todo mundo vai ficar perdido e isso vai dar muita merda". Um comentário bem articulado, dada as circunstâncias.

Quando a chuva acabou de vez a gente se despediu como quem nunca mais vai se ver e acha isso normal Achei prudente. No meu celular tinham algumas mensagens não lidas. Respondi com uma frase de Angels in America. O clichê é absoluto, mas era apenas no que eu conseguia pensar na ocasião.

"O amor verdadeiro não é ambivalente". Eu poderia jurar que essa fala é do meu romance best seller favorito... "Apaixonado pelo Misterioso da Noite", mas não acho que tenha lido.

- Eu não li.

- Devia ler, em vez de passar a vida tentando entender "Democracia nos EUA". É sobre uma mulher branca cujo pai é dono de uma plantação no Sul nos anos antes da Guerra Civil. O nome dela é Margaret e ela está apaixonada pelo escravo número 1 de seu pai. O nome dele é Thaddeus. Ela é casada, mas o seu marido, dono de escravos, tem aids. Tem os órgãos sexuais insuficientemente desenvolvidos. Então, acontece muita coisa quando Margaret e Thaddeus conseguem um tempinho sob a lua da colheita de algodão. Aí, claro, os ianques chegam e libertam os escravos. Os escravos livram-se do velho "papai" e tudo o mais. Ficção histórica. Em certa parte eu me lembro que Margaret e Thaddeus encontram um tempinho para discutir a natureza do amor. O clarão do fogo da plantação reflete no rosto dela. Sabe, como os brancos fazem. E o rosto dele é escuro à noite. E ela diz para ele: "Thaddeus, o amor verdadeiro nunca é ambivalente".

31.1.12

Toque de recolher


Tranco o porão depressa. Lá fora, explosões. Os destroços dançam, escrevem seus ritmos no ar. Poeira e fumaça enevoam ao redor e refletem o brilho de fogos, estilhaços de luz. A terra treme. Me refugio nos lençóis. Tenho medo e tapo os ouvidos. Em algum momento, porque nada é sem fim, se cala a multidão chorosa. Minha alma permanece atenta. Faz silêncio e adormeço, mas nada acalma meu coração.

24.1.12

Off the road

Ela olha pelo retrovisor. O sol nasce tímido. Estranho, não sente sono. Ela pensa no quanto estava enganada. No último livro que leu, um trecho ecoa: "Só podemos salvar a nós mesmos. Não é um trabalho nosso, não é nosso trabalho salvar as pessoas".

Na adolescência, existia o desejo muito comum entre seus amigos de ir embora. Ou de morrer. Ela passa marcha, faz uma curva fechada. Passa a marcha, ultrapassa uma fila de carros. Respira com certo alívio.

Uma música começa a tocar, ela sabe a letra quase toda e se enche de lembranças. Ela namorava um cara, mas ele tinha um histórico de poucos amores e a usava como um bote salva-vidas afetivo. Não que fosse uma pessoa ruim, quem sabe a amasse, mas talvez nem ele mesmo percebesse o quanto apertava seu pescoço pra sobreviver. A música acaba, ela precisa pôr gasolina.

Alguns quilômetros depois, para em uma lanchonete. Quer qualquer coisa doce e pede um energético. Ela pensa em pedir um cigarro, mas o cheiro e o gosto a incomodam. Entretanto, está bem mais interessada no efeito.