Comece duvidando. Eu preciso que você me diga que não é real no fim.
Existe um lugar onde as memórias não mais acessadas,os planos abandonados, as promessas quebradas, as farsas descobertas e toda sorte de desalento são guardadas, como num ferro velho, ou um álbum de fotografias. É como um ponto onde todas essas coisas fatalmente vão parar.
Estamos na entrada da cidade, que não passa, na verdade, de uma vila. E de repente pode não ser mais que uma casa. É por isso que eu só chamo de lugar. Como um esconderijo secreto, do tipo onde você se esconde e reza pra ninguém ver seus pés pra fora.
A verdade é que aquele lugar não deveria estar ali. Nem nós. E a inconveniência do fato, ou mesmo destino - é o que podem dizer - é que as duas coisas estavam acontecendo. Nós três faziamos parte de uma só situação, e partiríamos para diferentes caminhos.
Não sei dizer se poderia ter sido com outros, ou se eu tivesse dirigido mais rápido, ou passado a noite no hotel, nada disso teria ocorrido e então celebraríamos seis anos de casamento.
De qualquer forma, para nós, naquela ocasião, era uma vila. Uma ou duas ruazinhas estreiras; não mais que duas dezenas de casas; uma igreja singela e alguns postes espalhados. Simples e cativante - foi o que ela falou.
Você pressentiria tudo. Eu pressentia. Como num palco, onde todos têm suas marcações. O próximo ato esperando o próximo ato.
E ficou tudo embaçado, como uma lembrança que há muito não é invocada, um sonho bobo, onde você flutua e sua cabeça gira.
Ela pede para parar o carro, desce, caminha uns passos e gira nos calcanhares, olhando pra mim. Então, demos uma volta. Entre uma casinha amarela com uma cadeira de balanço na varanda e o poste com luz fraca. Na frente da igreja e perto de um poço. Tão simples e cativante...
É aqui que eu tento mudar a história.
Deviam estar todos dormindo. Ou escondidos. Ou coisa pior...
É quando ela começou a se sentir estranha e pálida.
Tão pálida. Desaparecendo.
As pessoas pálidas, pra mim, nunca mais foram as mesmas. Elas parecem que vão sumir como uma bruma, ou uma geada logo pela manhã. Mas elas não somem. Pelo menos não todas elas.
O reflexo do reflexo do reflexo. Seus olhos brilhando, espelhados nos vidros do carro, hesitando despejar um pequeno rio - imenso em sentimento. Foi quando eu a vi pela última vez.
O seu casaco opaco e liso e vermelho, como um batom derretido no banco do carro. Haviam outros detalhes, muitos mais, é verdade, mas nem sempre a verdade importa. Seu casaco foi o que restou: para resumi-la ou - como prefiro - aprisiona-la.
Eu demorei muito a aceitar isso, pra acreditar nessa bobagem toda. Eu não desisti de tentar achar alguma outra explicação e provas de que estou ridiculamente errado.
Eu sei o nome do lugar, estava numa placa antiga, mas às vezes eu gosto de pensar que não consigo lembrar. É inútil. E estamos todos de volta.
