28.5.08

águas de março no inverno de maio









estranho o fato de eu ter demorado tanto pra viajar, mesmo me sentindo tão preso aqui em Teresina. acontece que dei sorte. o festival de inverno de Pedro II, uma cidade de serra, no interior do Piauí, era em maio e eu estava com a cabeça em julho, então as coisas foram se encaixando. dinheiro foi aparecendo, as companhias, a estadia, parece que algo conspirava pra que desse tudo certo.

quatro dias de muito vento, noitinhas geladas e trilha sonora.

não sei direito, me sentia até suspenso. sem trabalhos de faculdade, aulas eternas, chateações em casa... troquei isso por ver nuvens passando e mutando bem rápido num horizonte azul e azul; por uma cachoeira de água gelada, massageando os ossos; por conversas amistosas e um bocado de sorrisos; troquei de lugar e de alma ritmando bossa nova.

fiquei na casa de uma família bem unida, que viviam com o essencial, com bom humor de sol a sol. sabe, quando você aprecia essas situações simples, o que vier a mais vai te surpreender. é uma questão de reeducar suas expectativas. daí, ver estrelas cadentes te deixa extasiado, a ponto de esquecer de fazer um desejo, bem talvez, porque eu já estava em um.

agora, levinho, com planos de voltar e outros de ir pra outros lugares, aqui mesmo, na meia árida, terra de bons amigos cheios de graça.

14.5.08

landscape I

fico leve feito algodão doce voando para bocas e sorrisos...

um mar de açúcar e de saliva

te ver é musica, tocando igual batida de coração

tons bem simples...

meu amor de beijos medrosos e apertos de mão

ângulo II

A primeira palavra poderia ser solidez, porque, às vezes, primeiras palavras estão encarregadas de trazer todo o resto consigo - o ponto mais alto para uma queda livre.

A arquibancada, com sua espacejada cobertura de líquens e suas gastas arestas erodidas, emana em todas as dimensões linhas imaginárias. Imóvel, mas contemplando 360 graus de infinitas possibilidades. Fusos horários de controle total.

Algumas linhas, tracejos e pontilhos, emolduram dias nublados e nádegas levemente aquecidas, adornam degraus firmes e aplausos, pessoas amontoadas e espaços desocupados; outras, brincam com o vento de tardes chatas de terças feiras entediadas ou se espalham pelos gritos de uma comemoração passageira de mesmas guerras forjadas.

A arquibancada dura tanto tempo, em seu microcosmo de eterna espera, ora palco, ora platéia. Blocos de concreto armado resistentes. Vai-se a chuva, vão-se os pés, ficam uns óculos, algumas carteiras. O resto não permance e pouco volta tal como fora antes.