23.8.09

febre de ausências I


Sentada no sofá, ela olha a sala mobiliada. A mesa de canto combina com os livros que ela empilhou para parecer por acaso: poesias leves e contos curtos, autores mais ou menos conhecidos. As poltronas são um pouco marrons escuras demais comparadas ao azuleijo do piso. Ela tenta preencher o pensamento com essas miudezas, com as características das coisas e do ambiente. É uma fuga. Dizer uma palavra até que ela perca o sentido.

Seus olhos grandes estão úmido feito folhas em orvalho. Ela admite a estratégia e pára de tentar refletir sobre a posição da TV em relação à luz da janela. Solta os cabelos que mal cobrem o pescoço, deita a cabeça no encosto do sofá, aperta os lábios e suspira de olhos fechados. Ela está endurecendo. Como os filhos que não choram a morte dos pais; velhos que passam o dia em frente a TV com olhos vazios; cães deitados sob a linha do trem.

Pode ter começado com o emprego. Não vai faz uma semana. Desligou o telefone e não abre os e-mails. Passou as manhãs arrumando a casa e recebendo os produtos que comprou pela internet. Preenchendo e dando vida aos cômodos.

Então, nesse momento, ela está no sofá, antes pernas cruzadas, agora estendidas sobre móvel, suspira brevemente. Ela quer ser como as coisas, organizadas e satisfeitas, com finalidades específicas e principalmente, acabadas em si: não sempre em infinita construção. Torrente. Marteladas. O rio e o homem que nunca são os mesmos. As coisas, último pensamento antes de adormecer chorosa, não precisam sentir nada e consequentemente nunca cansariam de se importar, muito menos o chão fugiria a seus pés, nem teriam medo de não se entregar. Mas as coisas, ela vai entender, apenas assistem sem tocar.

7.8.09

Minimalismo III




Se acredito nas pessoas, Milan? Espero que elas se abram para conflitos? Se desafiem nesse caminho? Se sou, para as pessoas, crível? Faço parte da triste ciranda das representações. Uma brincadeira de crianças más, um jogo medonho de sombras.