24.12.07

I'd flee this town

untitled

sentou-se à escrivaninha. ligou a luminária, visto que não conseguiria mais dormir. leu uma página marcada com uma fotografia e distraiu-se, olhando-a com apreço.

era uma cidadezinha vista de um belvedere. uma notável fonte de mármore em frente à igreja. um hotel simples, porém com bela pintura, tendo à frente uma cerca simpática, das que nunca negariam passagem. como se fosse não mais que truque ilusório, as núvens formavam vagamente o semblante de um deus, desalentado pelos fiéis que há muito cessaram o culto, e é agora senão um homem, invejando sempre o ter sido. e perto, cantando em volta de uma mesinha redonda de um café, uns tantos jovens e violões: músicas em imagens é silêncio. esforçou-se para lembrar de uma canção que ouvira numa viagem, mas não alcançou a melodia e era então só poema. contentou-se. as casinhas miúdas e a pracinha apinhada de crianças se desenhavam emolduradas naquele terno retrato. e de repente o deus se torna outra coisa qualquer, ao humor duvidoso das núvens.

fechou o livro. voltou a marcá-lo com a foto. foi à sua janela, mas estava tudo como ele esperava. sem surpresas. percorria o prédio ao lado, avistando luzes acesas em outros apartamentos. e murmurinhava numa cadência tímida os versos daquela canção. o sol saía do ventre norturno, e não tardaria nascer.

"aquela vila pequena
me permitia divagar
incerto, incerto
me dava um medo danado
falava meu tio
o medo por si não é errado
que não enfrentar é errado
porque viver
é ir num caminho invertido
sempre na contramão
é uma dança orquestrada
cheia de atos finais"

16.12.07

lost paths

escrevi isso em janeiro. hoje, é estranho ver como, talvez, me conhecia mais e melhor. de qualquer maneira, eu não sou mais o mesmo que era em janeiro, sendo isso bom ou ruim. provavelmente aprendi alguma coisa nesse tempo. provavelmente eu esqueci de outras. antes eu era cheio de teoria e quase nenhuma prática, posso adiantar.

então, pode ser que eu apenas não tenha vivido o suficiente pra assistir às conseqüências.
***

Outro dia ligaram aqui pra casa. Mal atendi e já veio uma história estranha, a qual eu não tinha nada a ver. Era um engano. Poderia ter desligado e continuado a dormir, mas não o fiz.

O que me chamou atenção foi o que ela disse no final. Algo como "por favor, não me decepciona, não deixa eu me arrepender de você".

Primeiro pensei no infeliz que devia ouvir aquilo tudo. Depois disso fiz um daqueles juramentos de cinco minutos. De não decepcionar ninguém. Ok, não consegui.

Tento tratar as pessoas bem, não sei se bem o suficiente e nem se é o melhor que posso fazer.

Conheci um monte de gente nesse tempo todo. De quase todo tipo. Fiz muitas outras dessas promessas de cinco minutos. Algumas nem pensei em fazer.

O que acontece é que às vezes me pego esperando o telefone tocar pra dizer:

"Eu não vou decepcionar você".
***



18.11.07

untitled

Vou tirar você de casa. Pôr um desses narizes engraçados e fazer umas mímicas bobas. A gente vai por aí pra encontrar todo mundo, conversar um tempo.
Vou dirigir a cento e oitenta, fazendo curvas abertas, sorrindo igual um louco; Vou pôr as caixas de som no banheiro, pras gotas tremerem antes de cair no chão. Vou te levar café na cama, quando você não for pro trabalho. Amarrar seus cadarços e beijar seus joelhos. E quando você não dormir, contarei uma das minhas historinhas macabras, com as quais você sempre se encolhe. Eu fico rindo à toa. Eu vou te abraçar, às vezes, sem motivo aparente.

Estou lutando pra não esquecer o seu rosto...

Infantitude II

Da cozinha, onde colocava as jarras d'água na geladeira, ela ouviu o agitado anúncio no rádio. As mãozinhas finas responderam involuntárias.

Invadiram a cidade, continuou a voz chiada. Tomaram de refém um orfanato, assegurando, assim, a estadia forçada; assaltaram os supermercados e reviraram as farmácias; pararam o trânsito com pneus em chamas e outras barricadas. Estavam cruelmente armados, todos os homens daquela milícia bestial (...), adjetivava o locutor.

Era inevitável. Breve, arrombariam a porta, rasgariam os travesseiros, pisoteariam o carpete - pensou vividamente. Quebrariam a porcelana de casamento, também os vasos de flores.

Decidiu ligar para o ex-marido e se despedir, enquanto era tempo. Ainda o amava, se convenceu. No caminho foi até a janela. Abriu um filete da persiana.

Parecia um dia bonito.

1.11.07

Acústicas IV

Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive , os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.

João Guimarães Rosa.

Infantitude I


Um ambicioso avião de caça. Suas bombas destruiriam a parte leste do continente e um rastro cósmico de poeira e vidro pairaria no ar.

Antes da explosão o tempo pararia.
Depois, nada mais.

O planeta tremeria por dias e noites. Ao fim da primeira leva de medo e insegurança, todos saberiam que ele continuava lá, acima das nuvens, rondando e preparando sua mira. Os sinaleiros tocariam insistentemente, a mesma balada, alarmando a multidão.

Os amantes fugiriam para os abrigos e lá seus filhos nasceriam.

29.10.07

Degrau

O pequeno do térreo quebrou uma perna e os braços tentando imitar um super herói, ao escalar o prédio vestindo um colant vermelho e azul. Uma custosa aventura que encontrou troféu nos 4 segundos de queda acompanhados de um largo e esquisito sorriso.

O vizinho da frente acaba de pôr fogo no colchão, acidentalmente, com um cigarro vivaz; ele ainda está domindo e as chamas já atearam no lençol. Ainda está dormindo: a fumaça escapa pela janela. Não acordou quando queimava a coleção dos beatles, os livros na estante, nem quando seus cabelos começaram a chamuscar, crepitanto, encolhendo. Preso num triste pesadelo azul-acinzentado-informe, lágrimas não seriam suficentes.

Logo acima, uma família briga por coisas que famílias não deveriam brigar. Cada um vive órfão de uma ideal e benfazeja unidade. Isolados em suas próprias vivências, gritam e acusam-se, e não há amor onde deveveria haver.

Ao lado um bebê dorme acalentado por cuidadosa babá, que tenta abafar uns tantos gritos de mulher com uma música cantada tão próximo quanto possível do ouvido dele. O mundo não entrará naquele berço, o mundo estará apenas naquela canção.

Uma porta está aberta, subindo a escada, no apartamento da esquerda. Ninguém em casa. Talvez, seja melhor assim.

Já entardecia e o vento trouxe um calor úmido que alou-se nos andares, rodopiando aqui e ali, nos cantos enbolorados no concreto, deixando um sussuro de vapor.

28.10.07

Stop Motion

Deitados na grama, olharam-se e perceberam que já não eram os mesmos. Nem a cor dos sapatos, a estampa na camisa, o prédio em frente, o dono da lanchonete, o asfalto, o gosto da cerveja, os cartazes de propaganda. Seus cabelos cresceram e então faziam um desenho esgraçado quando ao vento. Seus olhos ainda eram da mesma cor, só o tom no olhar mudou. As promessas pouco mudaram, mas algumas ficaram pra depois.

27.10.07

Beating Heart


{...}Um antisséptico bucal ajuda a reduzir a formação de cáries em até 71%; Nova York possui 18.976.655 habitantes; Um hamburguer tem 529 calorias; Gandhi nasceu no dia 2 de outubro de 1869; A distância do Rio de Janeiro a Madri é de 8200 km; Hoje, a cotação do dólar é R$ 1,899, para compra; Por ano, mais de um milhão de pessoas morrem em acidentes de trânsito; O coração de um adulto pode bater mais de 100 vezes por minuto {...}


(...)

Você pode enumerar os ladrilhos de um arranha céu, os amigos que já teve e as confusões em que se meteu, os amores, os desamores também, quantas horas você já viveu. Contar seus segredos aos estranhos que vir na rua. Como foi seu dia de trabalho e o que fará amanhã.

Em verdade, era só pra dizer que as coisas que você faz e o tempo que você despende nelas estão na mesma equação, diretamente proporcionais, relacionadas intrinsecamente. Algumas coisas importam mais que outras, sendo que outras eram que deveriam. Ás vezes acontece.

Você aprendeu a dar seus primeiros passos, agora dê uma volta...

24.10.07

Apart 1

Não é bem uma espécie de escolha quando você se esconde e se mostra, se protege e quando não, e nas vezes que se perde e se encontra. Não foi culpa sua, por mais que você não tenha mais a quem culpar senão você mesmo. Nós não fazemos parte de nada, e estamos todos juntos ao mesmo tempo. Deixa eu te levar em casa...

Stop and Go

Achei que nunca fosse dizer isso, mas hoje eu realmente quero umas doses de soma. É um mundo bem bonito, afinal.

19.10.07

Acústicas III

"(...) Não culpe sua mãe. Toda nossa geração é assim. Nós fracassamos em tudo. Vivemos uma mentira a vida toda...
sem nos darmos conta.

Desde criança sem perceber...acreditamos que aquilo era felicidade.
E quando nos disseram: 'A festa acabou'... já era tarde demais. Acho que você não deve tentar seguir o exemplo dela.(...)"

Tengiz - Depuis qu'Otar Est Parti (2003)



Minimalismo II

Soon you'll be ok.

Fone de Ouvido I

É estranho estar apaixonado. Uma espécie de super poder difícil de controlar. Acordar de madrugada e perceber pra quem são seus primeiros pensamentos. Num feriado prolongado, numa viagem um pouco mais duradoura, um dia, 60 segundos... estou com tanta saudades de você.

12.10.07

Não olhe agora I

Seus pais viajaram por tempo suficente pra esquecerem seus rostos, para um lugar longe o bastante pra não haver chance de voltar- apenas o flash nas fotos fará o caminho contrário.

7.10.07

Labor

Na beira da cama, já acordado, manteve os olhos fechados. O momento em que se toma uma grande decisão não precisa ser especial, talvez nem se dê conta dele pra contar numa conversa mais íntima. Trade-offs ideais são só lenda, é bem fácil saber, de forma que uma decisão nunca anula a outra completamente, e que esta ficará latente, pulsando irresoluta.
Exatamente antes de colocar os pés no chão, antes mesmo do café, ou de ver o sol - insistente por frestas da cortina, então haveria uma espécie de confirmação inefável que colocaria fim nas incertezas e só restaria fé, mas isso não aconteceu. Não aconteceu durante o longo banho, nem durante o café, nas lentas mordidas no pão. Não veio no caminho do trabalho, quando atravessando o parque sentou-se num banco para ler o jornal.

5.10.07

Espiral

De repente, pode fazer todo o sentido que algumas coisas possuam motivo nenhum pra permanecerem na sua vida. Na via contrárea da mesma idéia, quando tudo perde o sentido, você só quer manter alguma coisa, qualquer coisa.

19.9.07

In The Sky, Lucy...

Tive um sonho esquisito (do tipo que você nem precisa acordar pra lembrar). Era uma guerra estranha com barcos voadores, e onde o mundo era um tronco, aparentemente infinito, e nos galhos outros mundos. Parecia tudo desenhado à mão.

9.9.07

Follow de White Lobbyt I

Formadores de opinião são criaturas intocáveis. Figuras totêmicas flutuando sobre a massa. Apoiados por ícones históricos inabaláveis como filósofos viciados em cicuta, jacobinos guilhotinados, ou mesmo por engravatos ativistas pós modernos: mártires que, a seu tempo e dadas situações particulares, difundiram ideais pelos quais lutar.

7.9.07

Ecrã I


Tinha grande estima pelo recato, sem párea demanda.

Patologicamente, as claras deveriam ser obscuras. Não havia segredo que fosse patente, tampouco os reveses e as não tão poucas virtudes.

Paga-se um preço pelas escolhas a medida em que são feitas.

Não eram as ausências, não era solidão; o que o preocupava eram, em noites de insônia, ou em dias sem incumbência, em casa, indo de um cômodo a outro, as janelas abertas e os olhos do apartamento em frente. Faces em cotejo, sem barreiras ou contendas.

2.9.07

Caixa de Leite II

[...] Quem realmente sabe o que é certo e o que é errado? O que é bom ou ruim? Por que tantos aceitam as palavras de outros? Muitos de nós falhamos em pensar criticamente; aceitamos a versão oficial; nós falhamos em questionar a autoridade.

Vivemos num mundo simplificado, predigerido e fabricado, como ratos num labirinto.

Mas e sobre ratos que escapam do labirinto? O homem de jaleco branco fará o melhor para colocá-lo de volta. Mas, veja bem, mesmo sendo o rato mais espeto do labirinto, você só ganha as recompensas que eles dão pra você, e não dá pra ir longe por aí.[...]

1.9.07

Caixa de Leite I

Inconseqüentes são seres abençoados. Não é sobre ignorância ou inocência: a questão é que toda luz cria uma sombra.

30.8.07

Minimalismo I

Vamos ser sinceros eu e você.