24.12.07
untitled
sentou-se à escrivaninha. ligou a luminária, visto que não conseguiria mais dormir. leu uma página marcada com uma fotografia e distraiu-se, olhando-a com apreço.
era uma cidadezinha vista de um belvedere. uma notável fonte de mármore em frente à igreja. um hotel simples, porém com bela pintura, tendo à frente uma cerca simpática, das que nunca negariam passagem. como se fosse não mais que truque ilusório, as núvens formavam vagamente o semblante de um deus, desalentado pelos fiéis que há muito cessaram o culto, e é agora senão um homem, invejando sempre o ter sido. e perto, cantando em volta de uma mesinha redonda de um café, uns tantos jovens e violões: músicas em imagens é silêncio. esforçou-se para lembrar de uma canção que ouvira numa viagem, mas não alcançou a melodia e era então só poema. contentou-se. as casinhas miúdas e a pracinha apinhada de crianças se desenhavam emolduradas naquele terno retrato. e de repente o deus se torna outra coisa qualquer, ao humor duvidoso das núvens.
fechou o livro. voltou a marcá-lo com a foto. foi à sua janela, mas estava tudo como ele esperava. sem surpresas. percorria o prédio ao lado, avistando luzes acesas em outros apartamentos. e murmurinhava numa cadência tímida os versos daquela canção. o sol saía do ventre norturno, e não tardaria nascer.
"aquela vila pequena
me permitia divagar
incerto, incerto
me dava um medo danado
falava meu tio
o medo por si não é errado
que não enfrentar é errado
porque viver
é ir num caminho invertido
sempre na contramão
é uma dança orquestrada
cheia de atos finais"
era uma cidadezinha vista de um belvedere. uma notável fonte de mármore em frente à igreja. um hotel simples, porém com bela pintura, tendo à frente uma cerca simpática, das que nunca negariam passagem. como se fosse não mais que truque ilusório, as núvens formavam vagamente o semblante de um deus, desalentado pelos fiéis que há muito cessaram o culto, e é agora senão um homem, invejando sempre o ter sido. e perto, cantando em volta de uma mesinha redonda de um café, uns tantos jovens e violões: músicas em imagens é silêncio. esforçou-se para lembrar de uma canção que ouvira numa viagem, mas não alcançou a melodia e era então só poema. contentou-se. as casinhas miúdas e a pracinha apinhada de crianças se desenhavam emolduradas naquele terno retrato. e de repente o deus se torna outra coisa qualquer, ao humor duvidoso das núvens.
fechou o livro. voltou a marcá-lo com a foto. foi à sua janela, mas estava tudo como ele esperava. sem surpresas. percorria o prédio ao lado, avistando luzes acesas em outros apartamentos. e murmurinhava numa cadência tímida os versos daquela canção. o sol saía do ventre norturno, e não tardaria nascer.
"aquela vila pequena
me permitia divagar
incerto, incerto
me dava um medo danado
falava meu tio
o medo por si não é errado
que não enfrentar é errado
porque viver
é ir num caminho invertido
sempre na contramão
é uma dança orquestrada
cheia de atos finais"
16.12.07
lost paths
escrevi isso em janeiro. hoje, é estranho ver como, talvez, me conhecia mais e melhor. de qualquer maneira, eu não sou mais o mesmo que era em janeiro, sendo isso bom ou ruim. provavelmente aprendi alguma coisa nesse tempo. provavelmente eu esqueci de outras. antes eu era cheio de teoria e quase nenhuma prática, posso adiantar.
então, pode ser que eu apenas não tenha vivido o suficiente pra assistir às conseqüências.
***
Outro dia ligaram aqui pra casa. Mal atendi e já veio uma história estranha, a qual eu não tinha nada a ver. Era um engano. Poderia ter desligado e continuado a dormir, mas não o fiz.
O que me chamou atenção foi o que ela disse no final. Algo como "por favor, não me decepciona, não deixa eu me arrepender de você".
Primeiro pensei no infeliz que devia ouvir aquilo tudo. Depois disso fiz um daqueles juramentos de cinco minutos. De não decepcionar ninguém. Ok, não consegui.
Tento tratar as pessoas bem, não sei se bem o suficiente e nem se é o melhor que posso fazer.
Conheci um monte de gente nesse tempo todo. De quase todo tipo. Fiz muitas outras dessas promessas de cinco minutos. Algumas nem pensei em fazer.
O que acontece é que às vezes me pego esperando o telefone tocar pra dizer:
"Eu não vou decepcionar você".
***

então, pode ser que eu apenas não tenha vivido o suficiente pra assistir às conseqüências.
***
Outro dia ligaram aqui pra casa. Mal atendi e já veio uma história estranha, a qual eu não tinha nada a ver. Era um engano. Poderia ter desligado e continuado a dormir, mas não o fiz.
O que me chamou atenção foi o que ela disse no final. Algo como "por favor, não me decepciona, não deixa eu me arrepender de você".
Primeiro pensei no infeliz que devia ouvir aquilo tudo. Depois disso fiz um daqueles juramentos de cinco minutos. De não decepcionar ninguém. Ok, não consegui.
Tento tratar as pessoas bem, não sei se bem o suficiente e nem se é o melhor que posso fazer.
Conheci um monte de gente nesse tempo todo. De quase todo tipo. Fiz muitas outras dessas promessas de cinco minutos. Algumas nem pensei em fazer.
O que acontece é que às vezes me pego esperando o telefone tocar pra dizer:
"Eu não vou decepcionar você".
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