25.6.10

lado



Esses dois vizinhos quando eram jovens, chegaram perto de um romance, mesmo não entendo bem os significados. Havia, na época, aquela incompreensão geral que não deixava as ações se encaixarem. Situações que anos depois, teimam imaginar que fariam diferente, caso houvesse possibilidade. Infelizmente, não há chance para uma segunda vista. Refazer a cena.

Uma vez apenas não parece tempo suficiente, olhando de longe. É que uma sensação de eternidade vai preenchendo as lacunas. Imperceptível e confortável, é mais ou menos o que faz as pessoas passarem a tarde vendo TV, sem grandes planos, ou conversando com os amigos como se a tarde não tivesse fim. Até um determinado momento entretanto.

É um choque perceber a esteira do tempo. Ininterrupta. É o que faz essa garota, a vizinha, se sentir um pouco abalada, contrareando sua maturidade atual. O vizinho (ambos ainda moram no mesmo endereço) vai se casar mês que vem. Eles já nem se falam tanto, tem empregos, horários apertados, amigos diferentes. Rotinas que não se cruzam.

Ao lado da janela dela, ele plantou uma árvore, que hoje impede parcialmente a visão do muro. Ela olha a árvore e se conforta apenas em gostar das lembranças deles. E só. Até se sente bem pelo vizinho, aceita. Porque nem tudo é por opção. Envelhecer, ela entende, é o resultado de uma trama de possibilidades.

21.6.10

febre de ausências III - final



A música era tão alta que o pulmão dava saltos, hora no ritmo, hora quando faltava o ar. E ele pedalava com força, mais do que a pequena subida demandava. Alguma outra força exigia mais ainda. No fim, lá estava a voz, balada cheia de agudos, que ele havia reconhecido sem engano, desde a metade do caminho. A festa era num morro e o som descia igual neve. Quase relutou, no meio do caminho, mas já havia mordido essa isca de solos de guitarra e gritos afinados.

Deixou a bicicleta jogada na estrada, andou até uma seqüência de aros com luzes azuis e vermelhas. Um casal bêbado passou tateando, mas eles não procuravam outra coisa senão o banco de trás de um carro. Enquanto ele seguia em câmera lenta, os olhos fixaram no fundo da arena, no palco iluminado. O resto desfocou. Passava rápido até esfarelar no canto dos olhos. As luzes no palco desenhavam na fumaça uma cena do paraíso e nada era mais importante que isso.

É a última música, anunciam. Nada mais injusto. Aliás, poucas coisas são. Pedir para esquecê-la, por exemplo; fazê-lo em cacos; devolver todos os presentes, devidamente embalados e etiquetados; sumir por uma semana e não ligar uma vez sequer; mudar de telefone, de corte de cabelo, de amigos; ir embora para a casa de parentes no norte, sem dizer palavra; sumir; fazê-lo ir de cidade em cidade, comprando os jornais e indo nos bares, procurando um anúncio, um cochicho de uma apresentação sua. Poucas coisas podem ser tão difíceis de aceitar quanto o último acorde, a última batida.

Ele põe a mão no bolso da jaqueta. Algo brilhante faz todos saírem da frente do palco. Logo os mais afastados percebem que não é uma briga. Ela grita fora do tom. Não é esse o refrão. Ele mira, destrava, mira, mira. O microfone cai, mas ao invés do baque se ouve outro estouro. Então nada. Só tensão. Um golpe por trás, um chute no estômago e três seguranças o imobilizam. Antes de desmaiar ele a vê ser consolada. Seus olhares se cruzaam e tudo fica escuro.

Meses depois ela o visita na prisão, a contragosto da promotoria. As balas eram falsas ele começa, fazendo-a congelar. Serão alguns meses, apenas, ele preenche o silêncio. Ela sabia disso, havia acompanhado o julgamento, claro, mas queria sentir de perto. Ela pergunta por que. Ele tenta começar duas vezes até finalmente responder. Só queria colocar você no fio entre estar cheia de vida e de repente... Ver que tudo pode acabar, em segundos às vezes, independente de quão incrível foi. Somos agulhas e balões.