
Esses dois vizinhos quando eram jovens, chegaram perto de um romance, mesmo não entendo bem os significados. Havia, na época, aquela incompreensão geral que não deixava as ações se encaixarem. Situações que anos depois, teimam imaginar que fariam diferente, caso houvesse possibilidade. Infelizmente, não há chance para uma segunda vista. Refazer a cena.
Uma vez apenas não parece tempo suficiente, olhando de longe. É que uma sensação de eternidade vai preenchendo as lacunas. Imperceptível e confortável, é mais ou menos o que faz as pessoas passarem a tarde vendo TV, sem grandes planos, ou conversando com os amigos como se a tarde não tivesse fim. Até um determinado momento entretanto.
É um choque perceber a esteira do tempo. Ininterrupta. É o que faz essa garota, a vizinha, se sentir um pouco abalada, contrareando sua maturidade atual. O vizinho (ambos ainda moram no mesmo endereço) vai se casar mês que vem. Eles já nem se falam tanto, tem empregos, horários apertados, amigos diferentes. Rotinas que não se cruzam.
Ao lado da janela dela, ele plantou uma árvore, que hoje impede parcialmente a visão do muro. Ela olha a árvore e se conforta apenas em gostar das lembranças deles. E só. Até se sente bem pelo vizinho, aceita. Porque nem tudo é por opção. Envelhecer, ela entende, é o resultado de uma trama de possibilidades.
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