
A música era tão alta que o pulmão dava saltos, hora no ritmo, hora quando faltava o ar. E ele pedalava com força, mais do que a pequena subida demandava. Alguma outra força exigia mais ainda. No fim, lá estava a voz, balada cheia de agudos, que ele havia reconhecido sem engano, desde a metade do caminho. A festa era num morro e o som descia igual neve. Quase relutou, no meio do caminho, mas já havia mordido essa isca de solos de guitarra e gritos afinados.
Deixou a bicicleta jogada na estrada, andou até uma seqüência de aros com luzes azuis e vermelhas. Um casal bêbado passou tateando, mas eles não procuravam outra coisa senão o banco de trás de um carro. Enquanto ele seguia em câmera lenta, os olhos fixaram no fundo da arena, no palco iluminado. O resto desfocou. Passava rápido até esfarelar no canto dos olhos. As luzes no palco desenhavam na fumaça uma cena do paraíso e nada era mais importante que isso.
É a última música, anunciam. Nada mais injusto. Aliás, poucas coisas são. Pedir para esquecê-la, por exemplo; fazê-lo em cacos; devolver todos os presentes, devidamente embalados e etiquetados; sumir por uma semana e não ligar uma vez sequer; mudar de telefone, de corte de cabelo, de amigos; ir embora para a casa de parentes no norte, sem dizer palavra; sumir; fazê-lo ir de cidade em cidade, comprando os jornais e indo nos bares, procurando um anúncio, um cochicho de uma apresentação sua. Poucas coisas podem ser tão difíceis de aceitar quanto o último acorde, a última batida.
Ele põe a mão no bolso da jaqueta. Algo brilhante faz todos saírem da frente do palco. Logo os mais afastados percebem que não é uma briga. Ela grita fora do tom. Não é esse o refrão. Ele mira, destrava, mira, mira. O microfone cai, mas ao invés do baque se ouve outro estouro. Então nada. Só tensão. Um golpe por trás, um chute no estômago e três seguranças o imobilizam. Antes de desmaiar ele a vê ser consolada. Seus olhares se cruzaam e tudo fica escuro.
Meses depois ela o visita na prisão, a contragosto da promotoria. As balas eram falsas ele começa, fazendo-a congelar. Serão alguns meses, apenas, ele preenche o silêncio. Ela sabia disso, havia acompanhado o julgamento, claro, mas queria sentir de perto. Ela pergunta por que. Ele tenta começar duas vezes até finalmente responder. Só queria colocar você no fio entre estar cheia de vida e de repente... Ver que tudo pode acabar, em segundos às vezes, independente de quão incrível foi. Somos agulhas e balões.
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