24.5.09

Não volte, Cássio. O que o fez ir embora, não esqueça, não deixa uma segunda chance. Um crédito pra queimar. Acho que você deveria dar mais passos adiante. Acelere. Veloz, até incinerar os ossos e voar em combustão.

Estamos curados de sua ausência, ou melhor, a deixamos em um pote de vidro com formol, igual fazem com fetos sem sorte. Acendi uma pequena fogueira e o ofereci a algum deus, em forma de faíscas. Fumaça e calor preenchem uma trincheira agora.

Não encaro o piano, nem descerro os livros. Minha fé... abdicada. Ficamos, aqui em casa, feito luto. Cheios de silêncio. Repito enquanto olho para sua xícara guardada no armário, "não volte".

21.5.09

flying kite



Gostava das manhãs de folga. Sem colégio, saía de manhã pela rua. A areia fina cobrindo um chão firme. Grama. Cascalho. Não dava vontade de se calçar.

O cheiro. Era uma fragrância sentimental, nunca química. O vento era um lenço, espalhando o cheiro da manhã. Relevos. Texturas. Paisagem aquecida por um calor tão íntimo.

O mundo se resumia a um diâmetro de quarteirões - até onde a bicicleta podia alcança. O coração, acolhido, estava sempre em casa. E a casa não se limitava em tantos muros.


"Nós buscamos outras realidades porque não sabemos
como desfrutar da nossa; e saímos de dentro de nós mesmos
pelo desejo de saber como é o nosso interior."

Montaigne


11.5.09



das belezas, de todos os tipos,
um delicioso segredo.

os olhos tão sorridentes.
as bochechas são maçãs avermelhadas.

o pensamento, a vida, uma chama:
dentro dela amanheço e adormeço
iluminado.

10.5.09

Last Track


As ruas estão iluminadas como num filme fotográfico super exposto. Sem ofuscar, é a mesma luz de alguns sonhos, mas as paredes, o chão, os postes e os fios dos postes estão bem delimitados. Os traços em detalhes. Pode ser uma lembrança ou uma premonição. De alguma forma, você sabe onde vai acabar. Parece haver um imã te guiando pela cidade e não dá para se sentir perdido. É o que acontece, por exemplo, quando você volta depois de muito tempo para sua velha casa.Ou quando beija um ex-marido. Forasteiro e nativo.

A parte esquisita é não haver ninguém nas ruas. As lojas, os bares e tudo o mais está aberto. Talvez um sinal de bombardeio tenha soado. Talvez uma fissão nuclear sorrateira. Há apenas essa expectativa silenciosa que acelera o coração. Entretanto, você não se sente sobrevivente de quer lá o tenha acontecido. Você imagina, e ri de leve, que a qualquer momento as pessoas irão aparecer, fazendo uma surpresa.

Não dá pra ver o céu. Ou ao menos não dá pra distinguir outras cores nele ao invés de um branco hospitalar. É como estar num grande estúdio. As câmeras estão escondidas. Logo ali, atrás da placa de trânsito. Entre as árvores. Nos olhos da garota do anúncio. Mas não. Há apenas essa curiosidade pulsando nos seus olhos. Certa angústia. Talvez um pouco de medo justamente por não entender.

Então esas sensações dentro de você cedem espaço para uma leveza. Você chegou num lugar aberto e a cidade fica para trás. É o fim dela. Adiante há apenas um estacionamento. Ele se estende pelo horizonte. Magicamente, envolto por essa luz estranha, o estacionamento parece eterno. Não tem exatamente um início, algum sinal ou quadro de preços. Ele começa onde todo o resto termina. Ao mesmo tempo é parte e é autônomo. Não dá pra saber.

O que você vê vai se tornando o que o que você é. Tudo é aquela paisagem. Cinza. Faixas brancas e vagas vazias. Você nem precisa mais respirar, se dá conta. E se sente, que coisa, aliviado. Talvez nem precise pensar, é verdade, entregando-se a esse sentimento de grandeza e ao mesmo tempo anulação.

5.5.09

frame




Ela tinha os olhos mais lindos. Ninguém deveria ter aqueles olhos. É como um canal de tv que só passa o que você gosta. Sempre.

Me alegravam e me assustavam, porque encanto. E ela falava, e eu balançava a cabeça, todo bobo. Achei que nada me deixaria assim. Como poemas que falam as mesmas coisas.

Clichês não são menos verdade, só por o serem. História contadas tantas vezes que não precisamos mais pensar sobre elas. Estou enfeitiçado por olhos e escreveria um poema, desses que todos já ouviram falar. Ao mesmo tempo algo fora dos meus ritmos e também tão igual ao que se passa por aí.

Uma cortina. Uma dúvida. Um piscar de olhos.