26.8.10

Zona de Respiro I


Um pássaro pousa no fio elétrico. Sua sombra é imensa sob a calçada. Na penumbra, ela abre o portão, dá duas voltas na chave e empurra. Estranho, mesmo aqui não se sente segura.

É que é quase fim do mês, o salário está atrasado mas as contas não param. Quando as dívidas ganham vida própria, dão sempre um jeito de invadir os pensamentos. Talões de luz, talões de cheque, boletos bancários e o mundo é uma cifra com 365 dígitos.

No banho, liga o chuveiro, senta no piso e pende a cabeça para um lado, apoiando-a nos joelhos cruzados. Só se ouve o pulsar da água. Contínua.


*Imagem em "Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo", de Pedro Franz