O truque para esquecer a visão panorâmica é ver tudo bem de perto.
23.12.09
Enormes bolhas sobem apressadas. Se parece com uma explosão. Mais um pouco e consigo deitar no fundo da piscina.Vejo tudo embaçado, mas não o suficiente pra não sorrir da careta que você faz. Seus cabelos vistos daqui, contra a luz, parecem algas. E eu penso que seriam meio amargas, pra combinar com seu humor.
De repente, é estranho, a sua imagem enche meu pulmão. Se eu pudesse respirar o que vejo, nunca mais poderia afundar, nem mesmo na pressão dos precipícios mais fundos do oceano.
Pontinhos azuis aparecem em toda parte, fico um pouco tonto. Impulsiono de leve e começo a subir ainda deitado. Toco no seu rosto, submerso em beleza e silêncio, e minha vontade, ai ,é te abraçar por séculos, flutuando abobalhado.
Tua sombra passou pela casa ontem. Antes do jantar, abri a geladeira para pegar o azeite de oliva e lembrei de ti, da cor do teu cabelo. Parei por uns segundos, olhei vazio. Balancei logo a cabeça pra afastar aquele arrepio fino de solidão. É simplesmente perca de tempo ir no seu velho endereço, ligar no velho número. Certo como a gravidade: não sei mais ser herói.
De segunda a sábado, depois das 10, fico atrás da linha amarela, como indica a segurança.
Imagino que, do nada, o chão se abrirá em boca faminta. Os trilhos, as luzes, as pernas piscarão. No próximo instante, sopa de gente, de aço e de gritos. Essa minha vontade repentina de tragédia e mudança.
Na plataforma dois, um pouco cansado, espero o último vagão para casa.
Saí ontem a noite, na cobertura havia uma banda animando o bar. O transito lá embaixo era só um jogo de iluminação. A lua parecia próxima, mas, àquela hora, não aceitava mais declarações. Meus pés na sacada admiravam a altura. Ela os convidou em resposta.
Estou no recuo da onda. Quilômetros de distância de areia, areia e depois o mar. Algumas horas adiante, vejo nossa cidade inundada. Sem ralo, sem sifão.
Serei aquele na praia. E vejo a onda que se retrai.
Sentada no sofá, ela olha a sala mobiliada. A mesa de canto combina com os livros que ela empilhou para parecer por acaso: poesias leves e contos curtos, autores mais ou menos conhecidos. As poltronas são um pouco marrons escuras demais comparadas ao azuleijo do piso. Ela tenta preencher o pensamento com essas miudezas, com as características das coisas e do ambiente. É uma fuga. Dizer uma palavra até que ela perca o sentido.
Seus olhos grandes estão úmido feito folhas em orvalho. Ela admite a estratégia e pára de tentar refletir sobre a posição da TV em relação à luz da janela. Solta os cabelos que mal cobrem o pescoço, deita a cabeça no encosto do sofá, aperta os lábios e suspira de olhos fechados. Ela está endurecendo. Como os filhos que não choram a morte dos pais; velhos que passam o dia em frente a TV com olhos vazios; cães deitados sob a linha do trem.
Pode ter começado com o emprego. Não vai faz uma semana. Desligou o telefone e não abre os e-mails. Passou as manhãs arrumando a casa e recebendo os produtos que comprou pela internet. Preenchendo e dando vida aos cômodos.
Então, nesse momento, ela está no sofá, antes pernas cruzadas, agora estendidas sobre móvel, suspira brevemente. Ela quer ser como as coisas, organizadas e satisfeitas, com finalidades específicas e principalmente, acabadas em si: não sempre em infinita construção. Torrente. Marteladas. O rio e o homem que nunca são os mesmos. As coisas, último pensamento antes de adormecer chorosa, não precisam sentir nada e consequentemente nunca cansariam de se importar, muito menos o chão fugiria a seus pés, nem teriam medo de não se entregar. Mas as coisas, ela vai entender, apenas assistem sem tocar.
Se acredito nas pessoas, Milan? Espero que elas se abram para conflitos? Se desafiem nesse caminho? Se sou, para as pessoas, crível? Faço parte da triste ciranda das representações. Uma brincadeira de crianças más, um jogo medonho de sombras.
Ela descia as escadas, quatro degraus por vez, tão longe sua perna ia. O som surdo dos passos fazia par com a luz amarelada no fim do corredor. Chovia lá fora. Os carros, vidros embassados. Por todo lado um mundo de bolhas. Respingavam suaves, com a força das gotas que chovem dos olhos. * A noite havia sido muito quente para aquela época. Quando ouviu os primeiros pingos, vestiu uma regata e um calção velhos. Passou pela porta dos pais sorrateira feito um fantasma. * Na cama, lia o último capítulo de um romance antigo. O tio quem dera. Era sobre pessoas que se encontravam depois de muito tempo e sobre o que elas pensavam, na verdade, era sobre muitas outras coisas,mas ela gostou mais dessa parte, e mais porque seu coração havia apertado, logo percebeu o que aquilo podia significar. * As pessoas do livro viviam em um regime ideal e depois de um tempo isso acaba: um choque, um corte brusco de um filme que todos estão atentos, gostando ou não. Então, ela concluiu, não eram simplesmente pessoas que mudavam, mas , antes disso, uma quebra de paradigma imensa. E aquilo, para ela, era tão intenso. Dormiu inquieta e acordou com pequenas batidas na janela. * Docemente submersa, se perguntou, em como e que momento ela e os outros mudariam. Não percebeu, mas acabava de entrar no eterno suspense dos que esperam.
Estavam os cinco na sala, calados. Por um segundo seus olhares se cruzaram e formaram uma teia. Capturava, certamente, um vazio imenso. Eles poderiam conversar alguma bobagem, sem dúvida tinham coisas em comum e internamente, de certa forma, admitiam isso, mas não era constangedor. Era um silêncio tácito. Como o dos amantes que se separam antes do amanhecer e mantém sempre segredo.
A garota em frente à tv gosta de violoncelo. Aquela magrela na ponta do sofá toca na orquestra estadual.
No chão, perto da porta, cabelos embaraçados e olhos baixos: gosta de dança contemporânea. O rapaz deitado do tapete, olhando para o teto foi expulso de casa por isso.
Quase dormindo, o baixinho apoiado no sofá, leu todos os livros de literatura francesa da biblioteca da escola antes do segundo ano.
Uma força os distancia ao passo que os torna tão semelhantes. Apáticos, bebem enquanto pensam em si – talvez esquecendo que os outros também fazem parte de nós, tantas vezes camuflados em nossas vozes.
Pensam em não ser compreendido tal qual esperam. São partes que aspiram encaixar-se. Muitas partes, entretanto estão dispostas no tabuleiro, muitos nomes, gostos, muitos caminhos às vezes para a mesma linha de chegada.
E se acham cansados, como se já fossem ex-combatentes de guerra – uma herança esvaziada de sentido. Velocistas, correram mundos e não fixaram raízes em nenhum.
24.5.09
Não volte, Cássio. O que o fez ir embora, não esqueça, não deixa uma segunda chance. Um crédito pra queimar. Acho que você deveria dar mais passos adiante. Acelere. Veloz, até incinerar os ossos e voar em combustão.
Estamos curados de sua ausência, ou melhor, a deixamos em um pote de vidro com formol, igual fazem com fetos sem sorte. Acendi uma pequena fogueira e o ofereci a algum deus, em forma de faíscas. Fumaça e calor preenchem uma trincheira agora.
Não encaro o piano, nem descerro os livros. Minha fé... abdicada. Ficamos, aqui em casa, feito luto. Cheios de silêncio. Repito enquanto olho para sua xícara guardada no armário, "não volte".
Gostava das manhãs de folga. Sem colégio, saía de manhã pela rua. A areia fina cobrindo um chão firme. Grama. Cascalho. Não dava vontade de se calçar.
O cheiro. Era uma fragrância sentimental, nunca química. O vento era um lenço, espalhando o cheiro da manhã. Relevos. Texturas. Paisagem aquecida por um calor tão íntimo.
O mundo se resumia a um diâmetro de quarteirões - até onde a bicicleta podia alcança. O coração, acolhido, estava sempre em casa. E a casa não se limitava em tantos muros.
"Nós buscamos outras realidades porque não sabemos como desfrutar da nossa; e saímos de dentro de nós mesmos pelo desejo de saber como é o nosso interior."
Montaigne
11.5.09
das belezas, de todos os tipos, um delicioso segredo.
os olhos tão sorridentes. as bochechas são maçãs avermelhadas.
o pensamento, a vida, uma chama: dentro dela amanheço e adormeço iluminado.
As ruas estão iluminadas como num filme fotográfico super exposto. Sem ofuscar, é a mesma luz de alguns sonhos, mas as paredes, o chão, os postes e os fios dos postes estão bem delimitados. Os traços em detalhes. Pode ser uma lembrança ou uma premonição. De alguma forma, você sabe onde vai acabar. Parece haver um imã te guiando pela cidade e não dá para se sentir perdido. É o que acontece, por exemplo, quando você volta depois de muito tempo para sua velha casa.Ou quando beija um ex-marido. Forasteiro e nativo.
A parte esquisita é não haver ninguém nas ruas. As lojas, os bares e tudo o mais está aberto. Talvez um sinal de bombardeio tenha soado. Talvez uma fissão nuclear sorrateira. Há apenas essa expectativa silenciosa que acelera o coração. Entretanto, você não se sente sobrevivente de quer lá o tenha acontecido. Você imagina, e ri de leve, que a qualquer momento as pessoas irão aparecer, fazendo uma surpresa.
Não dá pra ver o céu. Ou ao menos não dá pra distinguir outras cores nele ao invés de um branco hospitalar. É como estar num grande estúdio. As câmeras estão escondidas. Logo ali, atrás da placa de trânsito. Entre as árvores. Nos olhos da garota do anúncio. Mas não. Há apenas essa curiosidade pulsando nos seus olhos. Certa angústia. Talvez um pouco de medo justamente por não entender.
Então esas sensações dentro de você cedem espaço para uma leveza. Você chegou num lugar aberto e a cidade fica para trás. É o fim dela. Adiante há apenas um estacionamento. Ele se estende pelo horizonte. Magicamente, envolto por essa luz estranha, o estacionamento parece eterno. Não tem exatamente um início, algum sinal ou quadro de preços. Ele começa onde todo o resto termina. Ao mesmo tempo é parte e é autônomo. Não dá pra saber.
O que você vê vai se tornando o que o que você é. Tudo é aquela paisagem. Cinza. Faixas brancas e vagas vazias. Você nem precisa mais respirar, se dá conta. E se sente, que coisa, aliviado. Talvez nem precise pensar, é verdade, entregando-se a esse sentimento de grandeza e ao mesmo tempo anulação.
Ela tinha os olhos mais lindos. Ninguém deveria ter aqueles olhos. É como um canal de tv que só passa o que você gosta. Sempre.
Me alegravam e me assustavam, porque encanto. E ela falava, e eu balançava a cabeça, todo bobo. Achei que nada me deixaria assim. Como poemas que falam as mesmas coisas.
Clichês não são menos verdade, só por o serem. História contadas tantas vezes que não precisamos mais pensar sobre elas. Estou enfeitiçado por olhos e escreveria um poema, desses que todos já ouviram falar. Ao mesmo tempo algo fora dos meus ritmos e também tão igual ao que se passa por aí.
Não durmo faz três dias. As coisas não se encaixam direito.Tudo tem ficado muito líquido. Não consigo captar. Às vezes, por uns segundos, sinto o tempo suspenso, numa lentidão calma, mas mesmo assim...
Fui até a cidade vizinha, sentar perto do cais. Era um banco que se encaixava bem nas costas. Não fazia frio, nem ventava forte. Os barcos só chegariam no fim da tarde, voltando do alto mar.
Por um momento, tentava definir a linha que a água faz com a areia, olhando com hipnótica atenção. Quando levantei pra ir embora, ela estava bem perto de um casal de pássaros, que não voou quando a espuma os atingiu.
O sol estava encoberto quando cheguei em casa. Quando fui pro chuveiro, a chuva lá fora caía também. Não é a mesma coisa. Nem se eu chorasse, aqui dentro ou lá fora. Por dentro ou por fora. Uma linha imprecisa. Não consigo definir.
Fico olhando as luzes dos postes formando um único rastro. Como um fio de lã neon. Rápido demais.
Uma mulher dirige o carro. Com o olhar entre o asfalto iluminado e um pouco mais além, um ponto de fuga, penso. Fisicamente ela é a mesma. Os mesmos olhos. O cabelo escuro. Ondulado. Ela não falou mais nada desde que entramos no carro. Mas eu não a reconheço completamente. Talvez eu tenha perdido alguma referência. Esquecido os atalhos de significações.
Recosto o banco, tento olhar só pro teto imóvel. Nesse instante, acredito estar viajando no tempo, numa máquina cyberpunk. Voltando pra mim mesmo. Um tempo interior. Onde eu ainda posso senti-la próxima. Onde muito de nossa fé ainda não nos tinha abandonado.
O dia começa a nascer e seu rosto é uma luz suave. Só consigo pensar em néctar, não consigo pensar em flores. Estou quase dormindo e estou com medo de esquecer o que sentia, de perder o sentido das coisas que falei. Permaneça nos meus sonhos. Levemente inalterada. Como eu gosto de lembrar.