30.5.11

Trustful Lie

Ela acordou, demorou um pouco na cama e então foi ao banheiro. Encarou-se no espelho demoradamente. Refletida ali na porta, ela toca o próprio rosto, como quem desenha um mapa. E há linhas também sob seus olhos, ao redor da boca, indo em direção ao nariz. Há vales e montes, minúsculos e quase imperceptíveis. Ela reconhece sua geografia. Sabe que breve dois rios inundarão seus relevos.

Foi há meses, mas é um momento sempre próximo. Reaparece na memória ao menor esforço. Ele surge e conta uma história, uma versão. Fala de uma lenda onde um cavaleiro salva uma camponesa. Eles se apaixonam, mas ele possui um segredo: ela nunca deve perguntar-lhe o nome. Então por um tempo isso não importou, porque o amor persistia e a dúvida era apenas uma sombra. Ela o conhecia, afinal. Sabia seus gestos e sua rotina, abraçava-o e então não tinha medo.

Ela abre os olhos de novo e vê a si mesma refletida no espelho. Lá estão eles, dois rios. Transparentes e caudalosos. E lembra a parte final da história: quando o que era apenas uma sombra tornou-se uma noite completa, enevoada. E nessa escuridão a camponesa se percebeu cega. Em vão gritou, ao que pareceu uma vida inteira. Mas ela não sabia a que nome se dirigir em desespero. E sem nomes, algumas portas se mantêm fechadas. E talvez por azar, alguns ficam trancados do lado de dentro.

9.5.11

Mesa posta


Já passa das nove, o jantar está frio. Os pratos, a sala, os detalhes: congelados. São dez horas. Chove um pouco. Estou aqui encharcado, lavando a louça e bebendo cerveja, com uma cara boba. Sinto um arrepio glacial e um gosto amargo, difícil de engolir.

Mais cedo, esperei soar a campainha e antes disso o telefone. Um silêncio terrível tentou ameaçar, mas o volume da televisão foi um escudo - enfim, descobri a função dela. É uma pena, me convenço, está ficando cada vez mais tarde.

Percebi atrasado, acho. Quantos outros sinais, antes dos óbvios? Perco o sono para procurar respostas com prazo de validade vencido há muito. Já não faço parte do plano. Ejetado da cabine, às vezes flutuo, outras desabo.

É meia noite e olho para a porta pela qual você não vai mais entrar.

4.5.11

Fronteiras

Mas que o biógrafo imaginário de Jan me explique por que, justamente nesse período, o livro preferido de Jan era o romance antigo Daphnis et Chloé! O amor de dois jovens, ainda quase crianças, que não sabem o que é o amor físico. O balido de um carneiro mistura-se com o barulho do mar e outro carneiro pasta sob a sombra de uma oliveira. Os dois jovens estão deitados lado a lado, nus e cheios de um imenso e vago desejo. Eles se abraçam, se apertam um contra o outro, estreitamente enlaçados. Permanecem assim durante um tempo muito, muito longo, porque não sabem o que mais poderiam fazer. Pensam que esse abraço é, por si só, todo o objetivo dos prazeres amorosos. Estão excitados, seus corações batem agitados, mas eles não sabem o que é fazer amor. Sim, é justamente por esse trecho que Jan é fascinado.
Milan Kundera – O livro do riso e do esquecimento.