Ela acordou, demorou um pouco na cama e então foi ao banheiro. Encarou-se no espelho demoradamente. Refletida ali na porta, ela toca o próprio rosto, como quem desenha um mapa. E há linhas também sob seus olhos, ao redor da boca, indo em direção ao nariz. Há vales e montes, minúsculos e quase imperceptíveis. Ela reconhece sua geografia. Sabe que breve dois rios inundarão seus relevos.
Foi há meses, mas é um momento sempre próximo. Reaparece na memória ao menor esforço. Ele surge e conta uma história, uma versão. Fala de uma lenda onde um cavaleiro salva uma camponesa. Eles se apaixonam, mas ele possui um segredo: ela nunca deve perguntar-lhe o nome. Então por um tempo isso não importou, porque o amor persistia e a dúvida era apenas uma sombra. Ela o conhecia, afinal. Sabia seus gestos e sua rotina, abraçava-o e então não tinha medo.
Ela abre os olhos de novo e vê a si mesma refletida no espelho. Lá estão eles, dois rios. Transparentes e caudalosos. E lembra a parte final da história: quando o que era apenas uma sombra tornou-se uma noite completa, enevoada. E nessa escuridão a camponesa se percebeu cega. Em vão gritou, ao que pareceu uma vida inteira. Mas ela não sabia a que nome se dirigir em desespero. E sem nomes, algumas portas se mantêm fechadas. E talvez por azar, alguns ficam trancados do lado de dentro.

