15.5.19

Bússola

Te dou um lápis e peço que imagine a si mesmo como uma cidade. E que, em decorrência disso, desenhe um mapa. Ele terá limites e contornos, mas não se importe com a precisão, porque é assim mesmo que são as fronteiras - permeáveis. Há ruas, avenidas, parques, jardins, casas, calçadas e pontes. Novos setores e setores antigos com cartazes desbotados cobertos por cartazes vibrantes. Há trânsitos, fluxos e lugares que você sequer conhece direito. Ainda que seja nossa cidade, não temos acesso imediato a tudo.

Pare por um momento as curvas cartográficas no papel, observe de longe e por um momento perceba como uma metáfora mais que geográfica. Transforme esses "espaços" em memórias, afetos, vínculos, sentimentos. É um mapa abstrato mais do que um guia físico. Um mapa de sentimentos. É complexo localizar onde alguns deles terminam e onde estão ausentes. Subjetivo e íntimo, como o mapa de uma cidade natal, nem sempre encarado com os olhos, porque nem tudo que se sente atinge a íris primeiro.

Quando nos envolvemos com outras pessoas, sobrepomos nossos mapas, semelhante a partituras de instrumentos de sopro, cordas e metais que soarão acordes. E permitimos rotas a certas "áreas", de forma mais ou menos mútua, mais ou menos simétrica. Enxergamos semelhanças ao passo que estranhamos alguns monumentos, nos chama atenção os volumes na malha gráfica.  Construímos novos lugares também. Não saímos ilesos de certos contatos, pois são também contágios.  Muros convidam tinta.

Podemos igualmente naufragar: perder alguém abruptamente é perder pontos de ancoragem, não mais poder frequentar “lugares” que gostávamos ou que apenas estávamos acostumados. Não mais iremos àquela sorveteria - ou, no sentido que essa "sorveteria" ganha, não mais visitaremos aquela intensidade específica de sentimento ou verticalidade de conforto.

As ausências são notadas e elas são febris. É como ter um prédio implodido sem aviso prévio, e ver no lugar escombros - ruínas. Ou viram outra coisa, como ter o jardim favorito transformado em um monótono estacionamento onde tudo soa nostálgico. As pontes queimadas, os atalhos recobertos de mato e as vias dinamitadas que se interpõem nos tiram um senso de localização – ficamos um pouco perdidos por um tempo.

Felizmente, somos cidades e ao mesmo tempo urbanistas: é o presente da reflexão e da consciência de podermos nos reformar, transformar e remontar. Nossos pedaços são nossos - e mesmo cacos formam mosaicos preciosos. Com a especial potência de debaixo dos nossos paralelepipedos, podermos encontrar a praia.