20.10.11

Dan Mountford

Ano passado, eu atravessava a rua, trazia nas costas um violão. Parei dois minutos, comprei uma cerveja. Olhava o movimento dos passantes enquanto me esfriava o primeiro gole.

Existem dois tipos de mortos. A diferença é que enquanto uns desaparecem totalmente, outros ainda estão por aí, cruzando a calçada enquanto damos o primeiro gole em uma cerveja.

É uma sensação absurda, feita sob medida para arrepiar toda a perna, indo pelo pescoço e atrás da orelha. Flechas que atingem o alvo. Esfrego a mão nos olhos, borrados pela surpresa.

Achei que passariamos translúcidos um pelo outro. Somos fantasmas em nossos corpos imateriais - são lembranças em acordes confusos de saudade.

15.10.11

Gravidade

Elit Lee Hazel

Como habitual, ele não sabia por onde começar. Encarava sua postura, sentada no degrau, seus cabelos despenteados e seus olhos enormes e atentos. Preferiu começar pelo final, dizendo que estava partindo. Esperou uma reação antes de prosseguir e ela, como habitual, apenas continuou atenta, como quem fotografa uma paisagem, tentando enquadrá-la, regulando a luz para então clicar o botão - e só há uma única chance.

Ele abriu duas ou três vezes a boca, mas engoliu as palavras antes de formarem som. Então se senta ao lado dela. Encostam os ombros, vacilantes. "Veja bem, estamos aqui, cada vez acreditando menos. Em breve restará tão pouco até não termos mais ímpeto de nos movermos, embora isso soe vago", e ele segue, colocando aqui e ali um sorriso. Alguns são crédulos, outros parecem só desesperados. "Você vai continuar linda".

Sem perceber, estão abraçados. Ela finalmente sussurra que acha prudente, se ele ainda não tiver, faça algum plano. Ela costumava dizer que ele era um desenhista preso em um mesmo projeto, às vezes repetindo as cores, reforçando traços, e principalmente, borrando e estragando a imagem. As chances eram altas de que no fim, restasse justamente um auto-retrato: um quadro inteiramente negro.

Entre um sentimento e outro, há um espaço de transição. O processo não é matemático e, portanto, a demora é subjetiva. É provável, em algumas condições, um longo período de suspensão, onde flutuam as peças antes de se reordenarem. É por onde, neste momento, ela navega.

Ele se despede com um olhar assustado, enquanto ela, sozinha na escada, se permite lamentar por mais algum tempo. Encaixa os fones de ouvido e sobe até seu andar. Não consegue se decidir se faz um sanduíche ou abre uma barra de chocolate. Desiste da cozinha e vai direto para o chuveiro. Faz dois dias que ela não lava o cabelo. Ao pegar o xampu, lembra o porquê: havia acabado. Ela ri desse pequeno desleixo. Enquanto a água flui para o ralo, ela passa o dedo no vidro do box, deixando lentas curvas no vapor.