26.12.08

Pegadas I

Existem estradas para todo tipo de viagem. Esta é serpenteada como um lenço jogado no ar. Muitos passaram por ela, ainda que não consigam precisar exatamente o momento. Ela existe entre duas cidades, dois pontos conectados. É importante que se diga,que certas cidades não existem fisicamente, mas ,ainda assim, são construídas e habitadas.

Das coisas que se vêem, não só o que se guarda numas lembranças profundas, fica. Podem demorar dias e noites, viajando pelas memórias, para se chegar onde esta parte das coisas que passaram está. A questão não é só acesso, é também fazer parte. Imergir é também ser.

Pela estrada as sensações da viagem podem arder e pulsar. Um sentimento pode ser uma cidade, bem como um sorriso breve pode ser vila à beira do mar.

4.10.08

Jungle






Imagine um homem cujo terceiro olho é uma máquina fotográfica. Esse olho pode levar pessoas pra onde (in)felizmente não podem ir: guerras, catástrofes e subcondições de vida.

Não se pretende arte, mesmo tendo muitas características desta. É mídia, um meio que liga um ponto a outro afastados no tempo, espaço e realidade para que, por alguns instantes se possa sentir o horror, a fome, a miséria.

A foto grafia como um meio de comunicação avassalador. Não é estática, pois há vida pulsando fortemente. Sem pieguice, o real se torna quase físico e até insuportável.

Existe a ideologia que diz não estar em nossas mãos tornar o mundo mais justo. E alguém se beneficia dela, é claro, mas não sou eu... Nem você.

Um filme capaz de reavivar a centelha do dever humano de construir algo melhor.


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17.7.08

Acústicas V

"Nem sei porque estava correndo - acho que era só porque me tinha dado vontade. Depois de atravessar a estrada senti um negócio esquisito, como se eu estivesse desaparecendo. Era uma dessas tardes meio malucas, fria pra burro, sem sol nem nada, e a gente se sentia como se estivesse desaparecendo toda vez que atravessava uma estrada. "

-O Apanhador no Campo de Centeio

5.6.08

landscape II






Ela teria dito, sem muita conversa, "feche os olhos".


"Existem tantas portas para acessar suas percepções. Algumas nunca experimentadas. Você sempre olha e estraga a surpresa, sempre quer ver... as mesmas coisas com nada de novo, mas seus olhos são duas objetivas preciosas e envelhecem, camada por camada, eles se cansam também e, sinceramente, nem sempre eles merecem”

Seu vestido florido tinha cores demais e surgia uma nova a cada balanço. Flutuava. Era mágico. Eu nem percebia. Muito do que acredito daquele tempo são da minha nova forma de lembrar. Mas nem sempre é tão colorido assim, algumas cores são cheias de despedida.

"Há tanto pra ver, é verdade. Você pode sempre escolher um novo ângulo, guardar um pouco de cada cena...”.

A gente jantou numa terça, num feriado bobo. Ela fez lasanha, mas era pra ser uma torta, ela confessou depois. Dormimos tão tarde que nem tínhamos mais sono. Ela fala enquanto dorme, mas só sonha acordada. Choveu um pouco de manhazinha. Fazia frio. Levantei primeiro e fiz o café, ela levantou logo que o cheiro se espalhou pela casa.

“... é um jogo injusto escolher e julgar. Não sei, é que explicar sem mostrar exige toda confiança do mundo. E se eu disesse... você entenderia? É igual sentir sem dar nome. O que é? No fim nem importa, você vai notar".


28.5.08

águas de março no inverno de maio









estranho o fato de eu ter demorado tanto pra viajar, mesmo me sentindo tão preso aqui em Teresina. acontece que dei sorte. o festival de inverno de Pedro II, uma cidade de serra, no interior do Piauí, era em maio e eu estava com a cabeça em julho, então as coisas foram se encaixando. dinheiro foi aparecendo, as companhias, a estadia, parece que algo conspirava pra que desse tudo certo.

quatro dias de muito vento, noitinhas geladas e trilha sonora.

não sei direito, me sentia até suspenso. sem trabalhos de faculdade, aulas eternas, chateações em casa... troquei isso por ver nuvens passando e mutando bem rápido num horizonte azul e azul; por uma cachoeira de água gelada, massageando os ossos; por conversas amistosas e um bocado de sorrisos; troquei de lugar e de alma ritmando bossa nova.

fiquei na casa de uma família bem unida, que viviam com o essencial, com bom humor de sol a sol. sabe, quando você aprecia essas situações simples, o que vier a mais vai te surpreender. é uma questão de reeducar suas expectativas. daí, ver estrelas cadentes te deixa extasiado, a ponto de esquecer de fazer um desejo, bem talvez, porque eu já estava em um.

agora, levinho, com planos de voltar e outros de ir pra outros lugares, aqui mesmo, na meia árida, terra de bons amigos cheios de graça.

14.5.08

landscape I

fico leve feito algodão doce voando para bocas e sorrisos...

um mar de açúcar e de saliva

te ver é musica, tocando igual batida de coração

tons bem simples...

meu amor de beijos medrosos e apertos de mão

ângulo II

A primeira palavra poderia ser solidez, porque, às vezes, primeiras palavras estão encarregadas de trazer todo o resto consigo - o ponto mais alto para uma queda livre.

A arquibancada, com sua espacejada cobertura de líquens e suas gastas arestas erodidas, emana em todas as dimensões linhas imaginárias. Imóvel, mas contemplando 360 graus de infinitas possibilidades. Fusos horários de controle total.

Algumas linhas, tracejos e pontilhos, emolduram dias nublados e nádegas levemente aquecidas, adornam degraus firmes e aplausos, pessoas amontoadas e espaços desocupados; outras, brincam com o vento de tardes chatas de terças feiras entediadas ou se espalham pelos gritos de uma comemoração passageira de mesmas guerras forjadas.

A arquibancada dura tanto tempo, em seu microcosmo de eterna espera, ora palco, ora platéia. Blocos de concreto armado resistentes. Vai-se a chuva, vão-se os pés, ficam uns óculos, algumas carteiras. O resto não permance e pouco volta tal como fora antes.

13.4.08

ângulo I


entre peças íntimas e meias, as luvas estão guardadas ou certamente esquecidas, desde a última viagem ao sul. elas não impediram que os dedos sentissem estar congelando durante um passeio noturno, levando vodca e rum - e segurar as garrafas era uma tarefa cuidadosa, principalmente da metade para o fim do conteúdo.

elas não são tão grossas quanto deveriam, nem tão confortáveis; infelizmente, não são da cor favorita; custaram mais que um cachecol, mas menos que uma touca. a melhor coisa era apanhar neve do chão e fazer mais ou menos umas bolas, mais ou menos uns bonecos.

disso tudo, em todo caso, só o que importa mesmo é que elas estiveram abaixo de zero.

11.3.08

untitled


A Marília acorda às 7:45. O som do despertador é uma canção de natal, o que não faz nenhuma diferença porque ela sempre acorda de mal humor. Depois do banho ela geralmente volta ao normal. Convivência não é um problema quando você aprende a ceder de vez em quando. A Marília trabalha mesmo nos fins de semana, e em alguns feriados prolongados. É uma espécie de web desingner, e é essa a razão de trabalhar em casa, exceto raras ocasiões.

Acho que vai demorar bastante pra eu entender todos aqueles números e códigos e as combinações de cores que ela me mostra quando eu paro do lado do computador, só pra dar uma espiada.

Sabe aquela campanha de fraldas descartáveis super resistentes, onde o bebê está prestes a cair de um arranha céu e a mãe o segura pela fralda? Achei incrível. Ela que criou o desenho da
logomarca.

Parece realmente um emprego legal. Mas aí eu lembro daquelas olheiras monstruosas e questiono minha opinião, ainda que o salário dela seja de quatro dígitos. Não sei se vale muito à
pena ter tv por assinatura se você não tem tempo pra assistir um filme completo que seja ou tenha um som magnífico de madeira japonesa se usa fones de ouvido ou um fogão de 8 bocas quando só se faz comida pra dois. Não é o que você pode ter, eu penso, mas
o tempo que você pode desfrutar é o que conta. Algumas coisas são mais úteis e eu posso comprar com o dinheiro do lanche.

Marília é minha meio irmã e gosta muito quando eu dedilho uma música lenta no violão. Aprendi violão com o antigo vizinho.

Morar em apartamentos de classe média tem dessas coisas, você conhece gente a todo momento. Todo tipo de gente. Isso é, se você estiver disposto... Não é muito difícil. Conhecer pessoas é
fácil. Só depende do nível de proximidade que você almeja.

O cara que me ensinou a tocar violão tomava sete pílulas tarjas preta por dia; ele só precisava de três. A parte boa é que ele sempre estava muito calmo e eu podia errar quanto fosse
necessário. A parte não tão boa era quando ele estava e não estava comigo... Ao mesmo tempo. Mesmo olhando nos meus olhos ele podia estar no Peru ou no Ceará ou na Índia, dando leite a
ratos sagrados.

Ele também tentou me ensinar sax, mas eu não aceitei porque ele tinha algo assustadoramente bizarro nos cantos da boca: ou algum tipo letal de herpes ou ele estava mascando pólvora.

A história de como eu vim morar com minha meio-irmã e acabei conhecendo o meu vizinho zen, não é longa. Envolve um padrasto ausente e uma fuga no meio da tarde de uma sexta feira. Um
processo judicial relativamente leve e uma pensão mensal. Pode chamar de parricídio moderno, se quiser.

Ás vezes é assim. Você não é um herói, nem o que sua mãe sonhou, nem o que você queria que fosse. Talvez só faça e desfaça sua cama todos os dias, ou esqueça de amarrar os sapatos antes de sair. Não é um bom exemplo, mas não é o pior.

20.2.08

caixa de leite III

Eu poderia contar a história de um acidente de carro e de um casal desastrosamente ferido, com muito sangue e gasolina espalhados pelo chão. Infelizmente, é isso o que eu faço na maioria das vezes...

Comece duvidando. Eu preciso que você me diga que não é real no fim.

Existe um lugar onde as memórias não mais acessadas,os planos abandonados, as promessas quebradas, as farsas descobertas e toda sorte de desalento são guardadas, como num ferro velho, ou um álbum de fotografias. É como um ponto onde todas essas coisas fatalmente vão parar.

Estamos na entrada da cidade, que não passa, na verdade, de uma vila. E de repente pode não ser mais que uma casa. É por isso que eu só chamo de lugar. Como um esconderijo secreto, do tipo onde você se esconde e reza pra ninguém ver seus pés pra fora.

A verdade é que aquele lugar não deveria estar ali. Nem nós. E a inconveniência do fato, ou mesmo destino - é o que podem dizer - é que as duas coisas estavam acontecendo. Nós três faziamos parte de uma só situação, e partiríamos para diferentes caminhos.

Não sei dizer se poderia ter sido com outros, ou se eu tivesse dirigido mais rápido, ou passado a noite no hotel, nada disso teria ocorrido e então celebraríamos seis anos de casamento.

De qualquer forma, para nós, naquela ocasião, era uma vila. Uma ou duas ruazinhas estreiras; não mais que duas dezenas de casas; uma igreja singela e alguns postes espalhados. Simples e cativante - foi o que ela falou.

Você pressentiria tudo. Eu pressentia. Como num palco, onde todos têm suas marcações. O próximo ato esperando o próximo ato.

E ficou tudo embaçado, como uma lembrança que há muito não é invocada, um sonho bobo, onde você flutua e sua cabeça gira.

Ela pede para parar o carro, desce, caminha uns passos e gira nos calcanhares, olhando pra mim. Então, demos uma volta. Entre uma casinha amarela com uma cadeira de balanço na varanda e o poste com luz fraca. Na frente da igreja e perto de um poço. Tão simples e cativante...

É aqui que eu tento mudar a história.

Deviam estar todos dormindo. Ou escondidos. Ou coisa pior...

É quando ela começou a se sentir estranha e pálida.

Tão pálida. Desaparecendo.

As pessoas pálidas, pra mim, nunca mais foram as mesmas. Elas parecem que vão sumir como uma bruma, ou uma geada logo pela manhã. Mas elas não somem. Pelo menos não todas elas.

O reflexo do reflexo do reflexo. Seus olhos brilhando, espelhados nos vidros do carro, hesitando despejar um pequeno rio - imenso em sentimento. Foi quando eu a vi pela última vez.

O seu casaco opaco e liso e vermelho, como um batom derretido no banco do carro. Haviam outros detalhes, muitos mais, é verdade, mas nem sempre a verdade importa. Seu casaco foi o que restou: para resumi-la ou - como prefiro - aprisiona-la.

Eu demorei muito a aceitar isso, pra acreditar nessa bobagem toda. Eu não desisti de tentar achar alguma outra explicação e provas de que estou ridiculamente errado.

Eu sei o nome do lugar, estava numa placa antiga, mas às vezes eu gosto de pensar que não consigo lembrar. É inútil. E estamos todos de volta.



22.1.08

Guilhotina


Naquela época as crianças não achavam que a sala de música fosse um artigo luxuoso ou o forno de pedra um exagero culinário nem mesmo os quadros que tia Luine, ociosa, pintava, excentricidade. Simplesmente naqueles dias Pietro não sabia as palavras para descrever o amor pela vizinha, mas imaginava haver um universo de adjetivos ocultos na biblioteca do tio. Era uma casa de campo aonde, ás vezes, ia nas férias com seu irmão mais novo, enquanto os pais viajavam uma vez por ano para renovadas luas de mel.

O irmãozinho passava as tardes inventando novas formas de diversão. Certa vez, encontrou um rato no sótão e preparou-lhe uma armadilha. Pietro acompanhava resignado. O rato não ofereceu resistência e regozijante abocanhou o pedaço de queijo, num banquete suicida. Havia uma gilete na parte da ratoeira que deceparia o roedor, logo a cabeça rolou por entre as tralhas úmidas do cômodo. Sendo um corte brusco, o sangue da presa pincelou as camisas dos garotos. Assustados, correram para fora. Ofegantes, entreolham-se complacentes. Cúmplices.

A cena, como mais tarde Pietro visualizou - quando fora pegar o cadáver para um enterro cristão adequado - não abandonou suas memórias. As mãos caricatas do rato ainda agarravam o petisco amarelado. A cabeça estava embaixo de uma mesa de jardim. O corte cirúrgico possibilitou que ele recosturasse as duas partes: como um artesão funesto.

Admitiu que Pierre - o nome que deu ao rato - vivera uma história de amor. Apaixonou-se por seu algoz. Talvez, não estivesse apenas inebriado pelas súplicas atraentes do queijo, mas arriscando-se por um momento real. É claro, essa foi a metáfora encorajadora que o levara a ir logo depois do enterro à casa ao lado, declarar-se e expor seu coração a certo sofrimento. Estava disposto a aventurar-se por um momento real.


(...)

21.1.08

desktop



20:40. o maldito atendente está lento. comida de solteiro é bem simples, mas prefiro comida de mães, ou de avós - que no fim é a mesma coisa.

21:00. eu sempre digo a verdade. um colega de faculdade ligou me chamando pra sair com o pessoal e como tava muito cansado, então disse que nunca acompanhava as conversas por mais que eu fosse realmente sociável. e que as piadas internas deles eram bem populares. acho que ele nunca mais vai me chamar pra lugar algum.

00:00. sabe aqueles vídeos em stop motion? meu primo trabalha nisso. ele me mandou uns vídeos que tinha terminado. não gostei muito do último sobre um balão vermelho. infelizmente, era o favorito dele. na verdade, eu penso, tudo é em stop motion. a visão capta fotos numa velocidade bem alta e depois é só seqüenciar. quadro a quadro.

03:00. dormir em stop motion: é quando você olha o relógio, pisca e percebe atônito que se passaram duas horas.

07:00. eu trabalho numa redação e faço a maioria dos trabalhos pequenos - juntos dão um trabalhão. hoje é sexta-feira então tenho que trabalhar na edição do final de semana também. sei, não é nada saudável.

14:00. então eu faço caminhada. foi a única coisa saudável que consegui pensar há uns meses atrás. nem estou acima do peso ou coisa do tipo. comecei logo depois que parei de fumar. fumei viciadamente por seis meses. o suficiente pra perceber que tinha que parar. ando pra não ascender o cigarro, mas não é exatamete a mesma coisa. às vezes é como um calmante. você tem que se acalmar quando trabalha com aquelas letrinhas pequenas.

18:00. tenho uma moto. dou uma volta por aí fingindo que sou o capitão américa, parando nas esquinas e lutando contra o crime.

5.1.08

quando eu tinha 5, vi um homem ser atropelado por um ônibus. estava no ponto com minha mãe e um cara entrou no caminho de um ônibus amarelo. isso não me traumatizou, mas eu às vezes lembro eficazmente. talvez isso possa ter influido no meu humor negro, mas não na minha insensibilidade. isso é outra história. essas coisas que você nem nota antes que seja tarde demais.

o homem sobreviveu, mas tinha sangue por todo lado. as crianças, as mães gritando e tudo.

semana passada eu estava num ônibus e ele bateu num carro. as pessoas atiradas pra frente e o vidro quebrando com o impacto. fui parar bem longe, mas estava tudo bem, só quase luxei o braço tentando me segurar.

era um dia muito estranho, eu já estava com mil coisas na cabeça e de repente ficou tudo embaralhado. acidentes são assim. uma diagonal entre as retas. talvez sirvam pra dar um toque. é que nada está a salvo.