No fim da tarde, enquanto lavava as louças do almoço decidi escrever pra mim mesmo. É um momento raro, mas não vou ser solene. Faz muito tempo, abandonei qualquer forma de diário pessoal, embora tenha recentemente recomendado isso para alguém próximo, falando da importância do cultivo de um espaço de intimidade, verbalização e elaboração da autoconsciência. Antes que eu escreva sobre a dificuldade de selecionar entre a vasta quantidade de experiências, vou de pronto me certificar de seguir um e apenas um fio, o de como escrever sobre mim mesmo se tornou algo raro e porquê isso me afastou de um centro importante da minha própria existência.
Sou uma criatura de palavras, penso por elas e acredito possuir uma voz interna, mesmo que timidamente, literária. Mas por muito tempo achei que isso seria uma vaidade, um luxo ao qual eu não teria direito. Então eu escrevi cientificamente - e mais do que isso, li cientificamente. E na ciência encontrei lastros, vocabulários, dimensionei fenômenos e perspectivas de apreensão. De uma certa forma, estou domado por anos de leituras científicas. É minha carreira agora, mas ainda há aquela voz que, de certa forma, transcende isso, como que reclamasse uma independência, ao menos que seja de consistência meramente narrativa.
As palavras me garantiram uma existência material objetiva pois elas concretizaram capacidades cognitivas, discursivas, deram forma a pensamentos e se tornaram produto pelos quais fui pago - pelo estado, por pessoas jurídicas e físicas. Escrever é então o meio do qual me sirvo para exercer minha intencionalidade no mundo para finalidades diversas, muitas vezes alheias. Pouco tenho dito sobre mim, diretamente, embora saiba que as obras falem de seus autores e até os denunciem. Há muito entalado, enlatado - camadas sedimentadas de uma distância de um núcleo pessoal, privado, interno. Minhas experiências, os atos que me constituem e as maquinações mentais que os acompanham, reclamam voz. E hoje, quando terminei de lavar as louças do almoço, num rompante, me coloquei a vasculhar palavras e conectá-las para mim nesse grande estacionamento cheio de ecos que criei há anos, quando eu era muito mais próximo da fonte jorrante de uma criatividade relativamente irrestrita - ou simplesmente mais espontânea.
É imensa a sensação de que paredes se fecham ao meu redor, exigindo um lugar fixo, me fazendo urgente a necessidade de definir o ponto nodal de um processo de crescimento. Isso em vários níveis: profissional, financeiro, emocional, político, existencial. Tem sido e vem sendo uma jornada ou um arranjo muito complexo, muito desafiador. E pouco tenho dito organizadamente, analiticamente ou talvez elaboradamente, sobre os fios que tento não deixar soltos, sobre as responsabilidades que tento ter comigo, sobre minha presença na realidade, sobre os impactos em mim de feixes complexos, desafiadores. Tenho receio de parecer narcisista, autocentrado, solipsista e até solitário demais - um exemplo de como, reiteradamente, o pensamento de que escrever é um luxo para poucos se ergue de formas diversas, com conceitos sofisticados e eu, sem resistir muito, emudeço.
Então espero reconquistar uma honestidade consciente sobre mim. E existem poucos lugares onde me sinto lícito para dizê-la, onde ela se exprima limpa antes que a brecha de oportunidade se feche, a energia mental necessária se esvaia entre outras demandas, outras palavras que também são minhas, mas que apenas me atravessam sem que nelas eu de fato diga com aquela voz, tão minha, tão preciosa: onde floresça e amadureça colorida toda potência.