30.12.11

Fantasia


Seus olhos são transparentes e quase telepáticos. Encolhem quando acompanham um sorriso livre, meio embriagado de leveza. Você ri, me olha e tudo é verdade. Passei a gostar dos seus olhos, principalmente quando fechados durante um beijo - sou um pouco trapaceiro e te observo em segredo, ouvindo seus suspiros apaixonados. Imagino, e é bastante provável, que de olhos fechados você veja fogos de artifício.

15.11.11

Twin flame


Você deveria ouvir todas as músicas que ouço no fim de tarde; ler os livros cujas páginas marquei; ver os filmes que vi e ainda lembro; comer minha comida, beber minha bebida, andar com meus amigos; ter meus sonhos, mesmos os que acordo chorando. Você deveria saber como me sinto sem perguntar. Ser capaz de medir minhas batidas de coração e perceber que tenho muito medo de ir embora. Saber minhas palavras ainda guardadas em segredo. Queria que você sentisse a minha preguiça ao amanhecer.

20.10.11

Dan Mountford

Ano passado, eu atravessava a rua, trazia nas costas um violão. Parei dois minutos, comprei uma cerveja. Olhava o movimento dos passantes enquanto me esfriava o primeiro gole.

Existem dois tipos de mortos. A diferença é que enquanto uns desaparecem totalmente, outros ainda estão por aí, cruzando a calçada enquanto damos o primeiro gole em uma cerveja.

É uma sensação absurda, feita sob medida para arrepiar toda a perna, indo pelo pescoço e atrás da orelha. Flechas que atingem o alvo. Esfrego a mão nos olhos, borrados pela surpresa.

Achei que passariamos translúcidos um pelo outro. Somos fantasmas em nossos corpos imateriais - são lembranças em acordes confusos de saudade.

15.10.11

Gravidade

Elit Lee Hazel

Como habitual, ele não sabia por onde começar. Encarava sua postura, sentada no degrau, seus cabelos despenteados e seus olhos enormes e atentos. Preferiu começar pelo final, dizendo que estava partindo. Esperou uma reação antes de prosseguir e ela, como habitual, apenas continuou atenta, como quem fotografa uma paisagem, tentando enquadrá-la, regulando a luz para então clicar o botão - e só há uma única chance.

Ele abriu duas ou três vezes a boca, mas engoliu as palavras antes de formarem som. Então se senta ao lado dela. Encostam os ombros, vacilantes. "Veja bem, estamos aqui, cada vez acreditando menos. Em breve restará tão pouco até não termos mais ímpeto de nos movermos, embora isso soe vago", e ele segue, colocando aqui e ali um sorriso. Alguns são crédulos, outros parecem só desesperados. "Você vai continuar linda".

Sem perceber, estão abraçados. Ela finalmente sussurra que acha prudente, se ele ainda não tiver, faça algum plano. Ela costumava dizer que ele era um desenhista preso em um mesmo projeto, às vezes repetindo as cores, reforçando traços, e principalmente, borrando e estragando a imagem. As chances eram altas de que no fim, restasse justamente um auto-retrato: um quadro inteiramente negro.

Entre um sentimento e outro, há um espaço de transição. O processo não é matemático e, portanto, a demora é subjetiva. É provável, em algumas condições, um longo período de suspensão, onde flutuam as peças antes de se reordenarem. É por onde, neste momento, ela navega.

Ele se despede com um olhar assustado, enquanto ela, sozinha na escada, se permite lamentar por mais algum tempo. Encaixa os fones de ouvido e sobe até seu andar. Não consegue se decidir se faz um sanduíche ou abre uma barra de chocolate. Desiste da cozinha e vai direto para o chuveiro. Faz dois dias que ela não lava o cabelo. Ao pegar o xampu, lembra o porquê: havia acabado. Ela ri desse pequeno desleixo. Enquanto a água flui para o ralo, ela passa o dedo no vidro do box, deixando lentas curvas no vapor.

7.9.11

Inverno


Eles estavam de mãos dadas quando tudo ficou escuro. Se viam nítidos por alguns intantes, em intervalos irregulares, à luz dos relâmpagos - flashs iluminavam seus rostos fazendo tudo se mover devagar. Se abraçaram e descansaram suas almas um no outro, entrelaçados, ofegantes. Trovões gritavam forte lá fora - um hino de destruição - mas não tão alto que seus corações batendo alto e fora do ritmo, explodindo apaixonados. Na parede, formavam uma única sombra.

14.8.11

Misunderstood

Babel. Aquela época eu me iludia, me enganava com as palavras. Admirava suas arestas, polia suas superfícies e acreditava na precisão, porque se ajustavam e cabiam no espaço, feito sob medida, para me fazer entender. Agora já não falo a língua dos homens. Não sei o que ouço, se é verdade ou enigma. Exito. Espero. Não sei o que digo e mudo, desapareço.

30.5.11

Trustful Lie

Ela acordou, demorou um pouco na cama e então foi ao banheiro. Encarou-se no espelho demoradamente. Refletida ali na porta, ela toca o próprio rosto, como quem desenha um mapa. E há linhas também sob seus olhos, ao redor da boca, indo em direção ao nariz. Há vales e montes, minúsculos e quase imperceptíveis. Ela reconhece sua geografia. Sabe que breve dois rios inundarão seus relevos.

Foi há meses, mas é um momento sempre próximo. Reaparece na memória ao menor esforço. Ele surge e conta uma história, uma versão. Fala de uma lenda onde um cavaleiro salva uma camponesa. Eles se apaixonam, mas ele possui um segredo: ela nunca deve perguntar-lhe o nome. Então por um tempo isso não importou, porque o amor persistia e a dúvida era apenas uma sombra. Ela o conhecia, afinal. Sabia seus gestos e sua rotina, abraçava-o e então não tinha medo.

Ela abre os olhos de novo e vê a si mesma refletida no espelho. Lá estão eles, dois rios. Transparentes e caudalosos. E lembra a parte final da história: quando o que era apenas uma sombra tornou-se uma noite completa, enevoada. E nessa escuridão a camponesa se percebeu cega. Em vão gritou, ao que pareceu uma vida inteira. Mas ela não sabia a que nome se dirigir em desespero. E sem nomes, algumas portas se mantêm fechadas. E talvez por azar, alguns ficam trancados do lado de dentro.

9.5.11

Mesa posta


Já passa das nove, o jantar está frio. Os pratos, a sala, os detalhes: congelados. São dez horas. Chove um pouco. Estou aqui encharcado, lavando a louça e bebendo cerveja, com uma cara boba. Sinto um arrepio glacial e um gosto amargo, difícil de engolir.

Mais cedo, esperei soar a campainha e antes disso o telefone. Um silêncio terrível tentou ameaçar, mas o volume da televisão foi um escudo - enfim, descobri a função dela. É uma pena, me convenço, está ficando cada vez mais tarde.

Percebi atrasado, acho. Quantos outros sinais, antes dos óbvios? Perco o sono para procurar respostas com prazo de validade vencido há muito. Já não faço parte do plano. Ejetado da cabine, às vezes flutuo, outras desabo.

É meia noite e olho para a porta pela qual você não vai mais entrar.

4.5.11

Fronteiras

Mas que o biógrafo imaginário de Jan me explique por que, justamente nesse período, o livro preferido de Jan era o romance antigo Daphnis et Chloé! O amor de dois jovens, ainda quase crianças, que não sabem o que é o amor físico. O balido de um carneiro mistura-se com o barulho do mar e outro carneiro pasta sob a sombra de uma oliveira. Os dois jovens estão deitados lado a lado, nus e cheios de um imenso e vago desejo. Eles se abraçam, se apertam um contra o outro, estreitamente enlaçados. Permanecem assim durante um tempo muito, muito longo, porque não sabem o que mais poderiam fazer. Pensam que esse abraço é, por si só, todo o objetivo dos prazeres amorosos. Estão excitados, seus corações batem agitados, mas eles não sabem o que é fazer amor. Sim, é justamente por esse trecho que Jan é fascinado.
Milan Kundera – O livro do riso e do esquecimento.

27.4.11

Missing pieces

Bo Bartlett

Você me deixa algumas pistas. Com elas monto um quadro incompleto, sob o qual passeio os olhos durante muito mais tempo do que gostaria de adimitir, e não consigo decifrar. Recorro no erro de tentar completar os espaços que faltam com partes minhas, não suas. É o que tenho pra jogar, e percebo que tenho perdido a maioria das rodadas.

Respiro fundo, enfrento as horas. São vagas, arrastadas, nelas apenas existo. Te reconheço nas nuvens, nas manchas no teto, na escuridão íntima dos meus segredos. Penso em você por quase nada.

4.4.11

Pretend

David Ho

"Pensa que não entendo? Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem... e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada... até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas deste gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silêncio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então não tem que interpretar papéis... fazer caras, gestos falsos. Acreditaria que sim... mas a realidade é diabólica. Seu esconderijo não é à prova d'água. A vida engana em todos os aspectos. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou não... se é sincera ou mentirosa. lsso só é importante no teatro. talvez nem nele. Entendo por que não fala, por que não se movimenta. Sua apatia se tornou um papel fantástico. Entendo e admiro você. Acho que deveria representar este papel até o fim... até que não seja mais interessante. Então pode esquecer... como esquece seus papéis."


- Persona, Ingmar Bergman

15.3.11

Núvem


Tenho esse par de sapatos, velho como as montanhas e igualmente empoeirado. Os cadarços estão folgados, mas não cedem ao nó. Ele agüenta cada largo passo, cada impulso. Penso neles agora, enquanto corro. Ouço trovões e não me importo.

Os primeiros pingos vêm suaves, dão lugar a gotas cada vez maiores para, finalmente, se juntarem no asfalto, que se transforma num rio. Estou à deriva. Escoro as costas em um muro. Abraço os joelhos meio sem jeito.

Há algo preso na minha garganta. É uma vontade desesperada, mas sem foco. Talvez um grito, um urro. A luz amarela dos postes de repente fraquejam, mas na verdade é meu fôlego. Meu corpo me trai - se recusa a voar.

21.2.11

Borrões I

Neil Krug


É julho. Ele sabe por causa do calor. Comprou um relógio com um tipo de termômetro, marca a temperatura no canto do display. A poeira é a única coisa que se assemelha à chuva porque vem também em nuvens, então colore o cabelo de tons marrons alaranjados - que se tornou a cor dos seus pensamentos - e deixa um gosto suave de barro na língua.

Ele dirige bem acima da velocidade permitida, mas não há ninguém para detê-lo nessa parte do mundo. Quantas milhas percorridas? É um mistério já que estrada é uma sucessão de horizontes trêmulos. No entanto, não importa quanto afunda seu pé no acelerador ou aumenta o volume do rádio, ainda persiste um eco, insistindo em alcançá-lo e seus olhos ficam úmidos mais uma vez. Fogo incendeia o rastro dos pneus.