
30.12.11
Fantasia

15.11.11
Twin flame
20.10.11
Existem dois tipos de mortos. A diferença é que enquanto uns desaparecem totalmente, outros ainda estão por aí, cruzando a calçada enquanto damos o primeiro gole em uma cerveja.
É uma sensação absurda, feita sob medida para arrepiar toda a perna, indo pelo pescoço e atrás da orelha. Flechas que atingem o alvo. Esfrego a mão nos olhos, borrados pela surpresa.
Achei que passariamos translúcidos um pelo outro. Somos fantasmas em nossos corpos imateriais - são lembranças em acordes confusos de saudade.
15.10.11
Gravidade
Elit Lee HazelEle abriu duas ou três vezes a boca, mas engoliu as palavras antes de formarem som. Então se senta ao lado dela. Encostam os ombros, vacilantes. "Veja bem, estamos aqui, cada vez acreditando menos. Em breve restará tão pouco até não termos mais ímpeto de nos movermos, embora isso soe vago", e ele segue, colocando aqui e ali um sorriso. Alguns são crédulos, outros parecem só desesperados. "Você vai continuar linda".
Sem perceber, estão abraçados. Ela finalmente sussurra que acha prudente, se ele ainda não tiver, faça algum plano. Ela costumava dizer que ele era um desenhista preso em um mesmo projeto, às vezes repetindo as cores, reforçando traços, e principalmente, borrando e estragando a imagem. As chances eram altas de que no fim, restasse justamente um auto-retrato: um quadro inteiramente negro.
Ele se despede com um olhar assustado, enquanto ela, sozinha na escada, se permite lamentar por mais algum tempo. Encaixa os fones de ouvido e sobe até seu andar. Não consegue se decidir se faz um sanduíche ou abre uma barra de chocolate. Desiste da cozinha e vai direto para o chuveiro. Faz dois dias que ela não lava o cabelo. Ao pegar o xampu, lembra o porquê: havia acabado. Ela ri desse pequeno desleixo. Enquanto a água flui para o ralo, ela passa o dedo no vidro do box, deixando lentas curvas no vapor.
7.9.11
Inverno
14.8.11
Misunderstood
30.5.11
Trustful Lie
Ela acordou, demorou um pouco na cama e então foi ao banheiro. Encarou-se no espelho demoradamente. Refletida ali na porta, ela toca o próprio rosto, como quem desenha um mapa. E há linhas também sob seus olhos, ao redor da boca, indo em direção ao nariz. Há vales e montes, minúsculos e quase imperceptíveis. Ela reconhece sua geografia. Sabe que breve dois rios inundarão seus relevos.
Foi há meses, mas é um momento sempre próximo. Reaparece na memória ao menor esforço. Ele surge e conta uma história, uma versão. Fala de uma lenda onde um cavaleiro salva uma camponesa. Eles se apaixonam, mas ele possui um segredo: ela nunca deve perguntar-lhe o nome. Então por um tempo isso não importou, porque o amor persistia e a dúvida era apenas uma sombra. Ela o conhecia, afinal. Sabia seus gestos e sua rotina, abraçava-o e então não tinha medo.
Ela abre os olhos de novo e vê a si mesma refletida no espelho. Lá estão eles, dois rios. Transparentes e caudalosos. E lembra a parte final da história: quando o que era apenas uma sombra tornou-se uma noite completa, enevoada. E nessa escuridão a camponesa se percebeu cega. Em vão gritou, ao que pareceu uma vida inteira. Mas ela não sabia a que nome se dirigir em desespero. E sem nomes, algumas portas se mantêm fechadas. E talvez por azar, alguns ficam trancados do lado de dentro.
9.5.11
Mesa posta
Já passa das nove, o jantar está frio. Os pratos, a sala, os detalhes: congelados. São dez horas. Chove um pouco. Estou aqui encharcado, lavando a louça e bebendo cerveja, com uma cara boba. Sinto um arrepio glacial e um gosto amargo, difícil de engolir.
Mais cedo, esperei soar a campainha e antes disso o telefone. Um silêncio terrível tentou ameaçar, mas o volume da televisão foi um escudo - enfim, descobri a função dela. É uma pena, me convenço, está ficando cada vez mais tarde.
Percebi atrasado, acho. Quantos outros sinais, antes dos óbvios? Perco o sono para procurar respostas com prazo de validade vencido há muito. Já não faço parte do plano. Ejetado da cabine, às vezes flutuo, outras desabo.
É meia noite e olho para a porta pela qual você não vai mais entrar.
4.5.11
Fronteiras
Mas que o biógrafo imaginário de Jan me explique por que, justamente nesse período, o livro preferido de Jan era o romance antigo Daphnis et Chloé! O amor de dois jovens, ainda quase crianças, que não sabem o que é o amor físico. O balido de um carneiro mistura-se com o barulho do mar e outro carneiro pasta sob a sombra de uma oliveira. Os dois jovens estão deitados lado a lado, nus e cheios de um imenso e vago desejo. Eles se abraçam, se apertam um contra o outro, estreitamente enlaçados. Permanecem assim durante um tempo muito, muito longo, porque não sabem o que mais poderiam fazer. Pensam que esse abraço é, por si só, todo o objetivo dos prazeres amorosos. Estão excitados, seus corações batem agitados, mas eles não sabem o que é fazer amor. Sim, é justamente por esse trecho que Jan é fascinado.
27.4.11
Missing pieces
Bo BartlettRespiro fundo, enfrento as horas. São vagas, arrastadas, nelas apenas existo. Te reconheço nas nuvens, nas manchas no teto, na escuridão íntima dos meus segredos. Penso em você por quase nada.
4.4.11
Pretend
"Pensa que não entendo? Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem... e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada... até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas deste gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silêncio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então não tem que interpretar papéis... fazer caras, gestos falsos. Acreditaria que sim... mas a realidade é diabólica. Seu esconderijo não é à prova d'água. A vida engana em todos os aspectos. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou não... se é sincera ou mentirosa. lsso só é importante no teatro. talvez nem nele. Entendo por que não fala, por que não se movimenta. Sua apatia se tornou um papel fantástico. Entendo e admiro você. Acho que deveria representar este papel até o fim... até que não seja mais interessante. Então pode esquecer... como esquece seus papéis."
- Persona, Ingmar Bergman
15.3.11
Núvem

Os primeiros pingos vêm suaves, dão lugar a gotas cada vez maiores para, finalmente, se juntarem no asfalto, que se transforma num rio. Estou à deriva. Escoro as costas em um muro. Abraço os joelhos meio sem jeito.
Há algo preso na minha garganta. É uma vontade desesperada, mas sem foco. Talvez um grito, um urro. A luz amarela dos postes de repente fraquejam, mas na verdade é meu fôlego. Meu corpo me trai - se recusa a voar.
21.2.11
Borrões I

Neil Krug
É julho. Ele sabe por causa do calor. Comprou um relógio com um tipo de termômetro, marca a temperatura no canto do display. A poeira é a única coisa que se assemelha à chuva porque vem também em nuvens, então colore o cabelo de tons marrons alaranjados - que se tornou a cor dos seus pensamentos - e deixa um gosto suave de barro na língua.
Ele dirige bem acima da velocidade permitida, mas não há ninguém para detê-lo nessa parte do mundo. Quantas milhas percorridas? É um mistério já que estrada é uma sucessão de horizontes trêmulos. No entanto, não importa quanto afunda seu pé no acelerador ou aumenta o volume do rádio, ainda persiste um eco, insistindo em alcançá-lo e seus olhos ficam úmidos mais uma vez. Fogo incendeia o rastro dos pneus.




