22.1.08

Guilhotina


Naquela época as crianças não achavam que a sala de música fosse um artigo luxuoso ou o forno de pedra um exagero culinário nem mesmo os quadros que tia Luine, ociosa, pintava, excentricidade. Simplesmente naqueles dias Pietro não sabia as palavras para descrever o amor pela vizinha, mas imaginava haver um universo de adjetivos ocultos na biblioteca do tio. Era uma casa de campo aonde, ás vezes, ia nas férias com seu irmão mais novo, enquanto os pais viajavam uma vez por ano para renovadas luas de mel.

O irmãozinho passava as tardes inventando novas formas de diversão. Certa vez, encontrou um rato no sótão e preparou-lhe uma armadilha. Pietro acompanhava resignado. O rato não ofereceu resistência e regozijante abocanhou o pedaço de queijo, num banquete suicida. Havia uma gilete na parte da ratoeira que deceparia o roedor, logo a cabeça rolou por entre as tralhas úmidas do cômodo. Sendo um corte brusco, o sangue da presa pincelou as camisas dos garotos. Assustados, correram para fora. Ofegantes, entreolham-se complacentes. Cúmplices.

A cena, como mais tarde Pietro visualizou - quando fora pegar o cadáver para um enterro cristão adequado - não abandonou suas memórias. As mãos caricatas do rato ainda agarravam o petisco amarelado. A cabeça estava embaixo de uma mesa de jardim. O corte cirúrgico possibilitou que ele recosturasse as duas partes: como um artesão funesto.

Admitiu que Pierre - o nome que deu ao rato - vivera uma história de amor. Apaixonou-se por seu algoz. Talvez, não estivesse apenas inebriado pelas súplicas atraentes do queijo, mas arriscando-se por um momento real. É claro, essa foi a metáfora encorajadora que o levara a ir logo depois do enterro à casa ao lado, declarar-se e expor seu coração a certo sofrimento. Estava disposto a aventurar-se por um momento real.


(...)

21.1.08

desktop



20:40. o maldito atendente está lento. comida de solteiro é bem simples, mas prefiro comida de mães, ou de avós - que no fim é a mesma coisa.

21:00. eu sempre digo a verdade. um colega de faculdade ligou me chamando pra sair com o pessoal e como tava muito cansado, então disse que nunca acompanhava as conversas por mais que eu fosse realmente sociável. e que as piadas internas deles eram bem populares. acho que ele nunca mais vai me chamar pra lugar algum.

00:00. sabe aqueles vídeos em stop motion? meu primo trabalha nisso. ele me mandou uns vídeos que tinha terminado. não gostei muito do último sobre um balão vermelho. infelizmente, era o favorito dele. na verdade, eu penso, tudo é em stop motion. a visão capta fotos numa velocidade bem alta e depois é só seqüenciar. quadro a quadro.

03:00. dormir em stop motion: é quando você olha o relógio, pisca e percebe atônito que se passaram duas horas.

07:00. eu trabalho numa redação e faço a maioria dos trabalhos pequenos - juntos dão um trabalhão. hoje é sexta-feira então tenho que trabalhar na edição do final de semana também. sei, não é nada saudável.

14:00. então eu faço caminhada. foi a única coisa saudável que consegui pensar há uns meses atrás. nem estou acima do peso ou coisa do tipo. comecei logo depois que parei de fumar. fumei viciadamente por seis meses. o suficiente pra perceber que tinha que parar. ando pra não ascender o cigarro, mas não é exatamete a mesma coisa. às vezes é como um calmante. você tem que se acalmar quando trabalha com aquelas letrinhas pequenas.

18:00. tenho uma moto. dou uma volta por aí fingindo que sou o capitão américa, parando nas esquinas e lutando contra o crime.

5.1.08

quando eu tinha 5, vi um homem ser atropelado por um ônibus. estava no ponto com minha mãe e um cara entrou no caminho de um ônibus amarelo. isso não me traumatizou, mas eu às vezes lembro eficazmente. talvez isso possa ter influido no meu humor negro, mas não na minha insensibilidade. isso é outra história. essas coisas que você nem nota antes que seja tarde demais.

o homem sobreviveu, mas tinha sangue por todo lado. as crianças, as mães gritando e tudo.

semana passada eu estava num ônibus e ele bateu num carro. as pessoas atiradas pra frente e o vidro quebrando com o impacto. fui parar bem longe, mas estava tudo bem, só quase luxei o braço tentando me segurar.

era um dia muito estranho, eu já estava com mil coisas na cabeça e de repente ficou tudo embaralhado. acidentes são assim. uma diagonal entre as retas. talvez sirvam pra dar um toque. é que nada está a salvo.