23.11.10

Longing II

Um dia fechei os olhos e seu rosto não se aproximou. Crescente, senti um medo agudo de que aquela sensação se prolongasse. Como por capricho, ela continuou. Então vieram os primeiros dias, congelantes. Minha barba e meus cabelos se transformaram em uma trança de gelo salgado.

As estações vieram, assim também os anos, sem que o tempo avançasse resolutivo, como confiei ser. Foram milênios e permaneci ansioso. Desbotei em chuvas ácidas. Esfarelou-se minha pele-pedra. Pereci tal foto e tal quadro, perdendo a nitidez e palavras repetidas que perdem o sentido – que internamente nunca tiveram. Até que, incapaz de mantê-lo, eu já não tinha um corpo para seguir esperando. Tornei-me um sentimento e sumi.

20.11.10

Rastro

Em quilômetros só se consegue enxergar pegadas. São passos incertos, desgastados, mas lá estão - mesmo falhados - presentes em suas marcas. Entre lojas e bares, por meio das casas, atravessando os muros. Dobrando esquinas, cortando o asfalto. É inútil buscar o final, porque se movem para sempre, aqueles pés fantasmas. É um rastro perverso: entre um ponto e outro a distância é de exatamente uma vida.

8.11.10

Ponto de Observação

Ás vezes me preocupa. Às vezes deixo passar. As pessoas mais próximas a mim vivem em uma linha instável, um fio de nylon desgastado de um violão. Nem ao menos posso apoiá-las, tão frágil o equilíbrio que as mantém. Às vezes me sinto impotente, às vezes finjo que nem ligo. Consigo relativizar tudo, as razões mais e menos ajuizadas, porque sou meio assim, sem ortodoxia. Lançam-me as mãos em socorro. Então, jogo uma bóia branca e vermelha amarrada a uma corda. Erro seguidamente o alvo, hora por falta de mira, hora por querer. Talvez, seria mesmo melhor, elas nem precisem de mim.

2.11.10

From sunset to sunrise

Não mais que borrões, os dois passam velozes, iluminados por um sol intenso, mesmo encoberto por grossas nuvens. Gotas sob seus corpos refletem o brilho azulado das manhãs. Entre ofegantes sorrisos ele a ergue no ar, ata as mãos em sua cintura. Rodopiam. Seus cabelos dançam com o vento. Girassol.

Sentam-se à sombra de uma pedra úmida. Debruçados,
observam uma nuvem negra caminhar no horizonte. Ela trará chuva e escuridão. Frio e mil trovões cortarão o ar - tudo tão ciclicamente necessário à vida dos verdes dias. Erguem-se com preguiça e pensam em talvez voltar para casa.

12.10.10

Fragmento

Jasper James - People and Places


Eles esperam o sol nascer. Talvez isso faça com que aquele vazio, cansado, durma. Poderia tê-los trazido perdão. A luz vai criando força. Alaranjada. Dourada. Branca. "Isso não deu certo", ela rompe o momento celeste. Se ele tivesse respondido "só mais um pouco", seria suficiente? Enquanto fecha a porta, se despede em silêncio da silhueta na varanda, cuja sombra projeta-se pela sala. No ônibus até em casa ela refaz suas falas e as dele, reparando os pesos de cada palavra. Não consegue precisar em que parte daquele amanhecer a fé que os unia rompeu, diluida no ar feito neblina.

26.9.10

Puzzle

2005, Setembro, Brasil

Conto apenas mentiras. Não são mentiras leves, de pouca imaginação. Que desafio há, senão o do labirinto? Menti, e ainda o faço, sobre minha tristeza, quando esta é apenas a fantasia de um vazio imenso. Farsante, oculto, furtivo.

Minto sobre a ruína que se tornaram meus dias, sobre os quais se esboçam anos, talvez mais. Nem aniversários, nem bailes ou parques de diversões adiantaram, tampouco seu sorriso. São farrapos, comparados à decadência da qual sou hospedeiro.

Caio e sigo ainda. Minto: são camadas e camadas. Vidros trincados. Te amo, embora não te ame, porque é essa a verdade. Não faço por mal, penso. Não sou um monstro. Essa ilusão, na verdade, é só que existe.

-Théo

7.9.10



Infelizmente não é assim que funciona. A partir de agora todas as outras mulheres que conhecer serão, em maior menor medida, uma comparação sua. Enquanto você fala, imagino a tragédia dos próximos dias. Não é só uma quebra de rotina. É uma febre. Febre de ausências. Tem essa mancha nos seus óculos que na verdade é uma rachadura. Enxergo-me duplo no reflexo: meio a meio, uma parte é só desordem e a outra parte é reconstrução.

Então por um momento eu não te ouço, te vejo embaçada. Vou aos poucos me transportando, vendo as coisas como em um filme, ou nos quadros de uma comic. À distância. Não sei quais são minhas falas. Quem as levou? Você diz que era isso que tinha para dizer. Balanço rapidamente com a cabeça, aperto a lingua entre os lábios. Me percebo preenchido com uma enorme necessidade de dizer algo tão confortável quanto um abraço, mas não consigo juntar as palavras a tempo. Impaciente você pega suas coisas, me olha um pouco chateada e dá as costas. Quase a chamei de volta, mas só admirei a certeza dos seus passos.

26.8.10

Zona de Respiro I


Um pássaro pousa no fio elétrico. Sua sombra é imensa sob a calçada. Na penumbra, ela abre o portão, dá duas voltas na chave e empurra. Estranho, mesmo aqui não se sente segura.

É que é quase fim do mês, o salário está atrasado mas as contas não param. Quando as dívidas ganham vida própria, dão sempre um jeito de invadir os pensamentos. Talões de luz, talões de cheque, boletos bancários e o mundo é uma cifra com 365 dígitos.

No banho, liga o chuveiro, senta no piso e pende a cabeça para um lado, apoiando-a nos joelhos cruzados. Só se ouve o pulsar da água. Contínua.


*Imagem em "Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo", de Pedro Franz

21.7.10

Mínimas I

Onde ela o encontrou existem outros, muitos mais. Com menos segredos embaraçosos. Menos olheiras, menos ressacas, menos rugas. Talvez até com boas histórias para contar. Em esquinas, em becos, em porões: ela se reconfortará da perda. E verá de novo, novos olhos brilhantes.

2.7.10

super nova

Brian Kenny

Que o universo nos acolha por inteiro, gentil. Nossos sentimentos compactados. Sobrepostos. Apertados. Os transparentes e os reprimidos, todos cabem. Eles se fundem, porque miscíveis em sangue. Se confundem, indistinguíveis. Se comprimem, cedendo à gravidade. Então, densificam, começam a pesar, sob enorme pressão. Poeira de estrela, explodimos em colapso.

25.6.10

lado



Esses dois vizinhos quando eram jovens, chegaram perto de um romance, mesmo não entendo bem os significados. Havia, na época, aquela incompreensão geral que não deixava as ações se encaixarem. Situações que anos depois, teimam imaginar que fariam diferente, caso houvesse possibilidade. Infelizmente, não há chance para uma segunda vista. Refazer a cena.

Uma vez apenas não parece tempo suficiente, olhando de longe. É que uma sensação de eternidade vai preenchendo as lacunas. Imperceptível e confortável, é mais ou menos o que faz as pessoas passarem a tarde vendo TV, sem grandes planos, ou conversando com os amigos como se a tarde não tivesse fim. Até um determinado momento entretanto.

É um choque perceber a esteira do tempo. Ininterrupta. É o que faz essa garota, a vizinha, se sentir um pouco abalada, contrareando sua maturidade atual. O vizinho (ambos ainda moram no mesmo endereço) vai se casar mês que vem. Eles já nem se falam tanto, tem empregos, horários apertados, amigos diferentes. Rotinas que não se cruzam.

Ao lado da janela dela, ele plantou uma árvore, que hoje impede parcialmente a visão do muro. Ela olha a árvore e se conforta apenas em gostar das lembranças deles. E só. Até se sente bem pelo vizinho, aceita. Porque nem tudo é por opção. Envelhecer, ela entende, é o resultado de uma trama de possibilidades.

21.6.10

febre de ausências III - final



A música era tão alta que o pulmão dava saltos, hora no ritmo, hora quando faltava o ar. E ele pedalava com força, mais do que a pequena subida demandava. Alguma outra força exigia mais ainda. No fim, lá estava a voz, balada cheia de agudos, que ele havia reconhecido sem engano, desde a metade do caminho. A festa era num morro e o som descia igual neve. Quase relutou, no meio do caminho, mas já havia mordido essa isca de solos de guitarra e gritos afinados.

Deixou a bicicleta jogada na estrada, andou até uma seqüência de aros com luzes azuis e vermelhas. Um casal bêbado passou tateando, mas eles não procuravam outra coisa senão o banco de trás de um carro. Enquanto ele seguia em câmera lenta, os olhos fixaram no fundo da arena, no palco iluminado. O resto desfocou. Passava rápido até esfarelar no canto dos olhos. As luzes no palco desenhavam na fumaça uma cena do paraíso e nada era mais importante que isso.

É a última música, anunciam. Nada mais injusto. Aliás, poucas coisas são. Pedir para esquecê-la, por exemplo; fazê-lo em cacos; devolver todos os presentes, devidamente embalados e etiquetados; sumir por uma semana e não ligar uma vez sequer; mudar de telefone, de corte de cabelo, de amigos; ir embora para a casa de parentes no norte, sem dizer palavra; sumir; fazê-lo ir de cidade em cidade, comprando os jornais e indo nos bares, procurando um anúncio, um cochicho de uma apresentação sua. Poucas coisas podem ser tão difíceis de aceitar quanto o último acorde, a última batida.

Ele põe a mão no bolso da jaqueta. Algo brilhante faz todos saírem da frente do palco. Logo os mais afastados percebem que não é uma briga. Ela grita fora do tom. Não é esse o refrão. Ele mira, destrava, mira, mira. O microfone cai, mas ao invés do baque se ouve outro estouro. Então nada. Só tensão. Um golpe por trás, um chute no estômago e três seguranças o imobilizam. Antes de desmaiar ele a vê ser consolada. Seus olhares se cruzaam e tudo fica escuro.

Meses depois ela o visita na prisão, a contragosto da promotoria. As balas eram falsas ele começa, fazendo-a congelar. Serão alguns meses, apenas, ele preenche o silêncio. Ela sabia disso, havia acompanhado o julgamento, claro, mas queria sentir de perto. Ela pergunta por que. Ele tenta começar duas vezes até finalmente responder. Só queria colocar você no fio entre estar cheia de vida e de repente... Ver que tudo pode acabar, em segundos às vezes, independente de quão incrível foi. Somos agulhas e balões.

2.5.10

fantasy quotes I



"Acredito que ter feito escolhas sem pensar no futuro não foi um erro. Me senti mais ou menos satisfeita, o que não necessariamente dependia do resultado. Hoje, que envelheci e voltei depois de tantos anos a andar por essas avenidas, rever velhas estátuas contempladas por novos fiéis, não posso dizer que era o que eu estava esperando desde sempre. Não caminho no escuro, certamente, mas ainda tenho algum fôlego para brincar com a sorte, com dados e ossos."

5.4.10

Eternidade

- A única fronteira que sobrou para nós é o mundo dos inatingíveis - ela dizia.- Todo o resto já foi amarrado.

Enjaulado dentro de uma quantidade excessiva de leis.

Com inatingíveis ela queria dizer a internet, filmes, música, histórias, arte, boatos, programas de computador, tudo que não é real. Realidades virtuais. Troços de faz de conta. A cultura.

O irreal é mais poderoso que o real.

Pois nada é tão perfeito quanto você imagina que é.

Pois é apenas o inatingível que perdura, ou seja, idéias, conceitos, crenças e fantasias. Rocha se esfarela. Madeira apodrece. Gente.. bom, gente morre.

Mas coisas frágeis como pensamentos, sonhos e lendas podem permanecer pra sempre.

[...]

-Talvez você consiga mudar a maneira de pensar das pessoas. A maneira como elas se vêem. A maneira como vêem o mundo. Se fizer isso, você pode mudar a maneira como as pessoas vivem suas vidas. E essa é a única coisa duradoura que você pode criar.

Além do mais, chegará um momento em que suas lembranças, histórias e aventuras serão a única coisas que restarão a você.

[...]

-Minha meta é ser um motor de entusiasmo na vida das pessoas.


______

No Sufoco, Chuck Palahniuk



O mundo em meus dedos*


"Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo "esquisso" é a palavra certa, porque esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso em nada, é um esboço sem quadro."

-Milan Kundera


*composição de Andrei Machado, disponível em:
myspace.com/andreimachado

13.3.10

where are we?


Um estalar de vidro a acorda na madrugada. O vizinho dos fundos, seu sobrenome é desalento. De olhos abertos no escuro, se percebe sem sono, uma estranha disposição quase nunca oportuna. Negros horizontes se desenham pelo quarto, infinitos e desfocados.

Ela abandona os lençóis, vai para a sala, enche um copo e caminha até a janela. Vestida de pele e insônia, goles amargos de vodca serão sua companhia. Verão juntas o moroso passar das núvens enquanto silenciosamente conversam sobre distâncias invisíveis.

11.2.10

untitled

Sou uma grande flor branca e me dirijo a você para um abraço macio. Ainda no ar, rodopio duas vezes até deitar sob seus olhos. Meus tons, agora junto ao seu rosto, parecem mais suaves. Uma sensação leve, como gostaria que fossem os meus dias por esses tempos. Mas sou só despedidas. E tudo que vejo parece molhado e frio.

4.2.10

youth - notes



Ele sobe os três degraus do ônibus que esperou por uns quarenta minutos. Um percurso de vinte minutos o levará ao trabalho, numa sala 3X3m quente e pouco amistosa. Ele imagina se a numerologia saberia explicar, com base nos dígitos do cotidiano, o que tem se passado e o futuro que se esboça. Já sentado na dura cadeira do veículo, ri internamente da gorda bobagem que acabara de pensar.

Entretanto, ele se intrigava com o fato de ter chegado a uma parte da vida em que escolhas e possibilidades vão se esvaindo ou, para amenizar, compactando-se. Por exemplo, ele observa, não irá mais crescer. Nem um centímetro a mais. Para sempre (ao menos até a coluna o trair) a um metro e setenta do chão.

A numerologia não falharia, é verdade, caso previsse, a partir dos dados contidos em seus planos, sonhos e vontades, que haveria de chegar um momento em que ele não poderia deixar de trabalhar. Feito um peixe, que 'nunca' dorme. Por mil razões, parece óbvio - ele argumenta - mas não se trataria mais de uma escolha, mas de uma necessidade inerente. Uma roda de moinho guiada por uma mão invisível. E dessa maneira, escolher mudar de carreira, de país ou de penteado estaria cada vez mais condicionado.

Esfrega as mãos nos olhos, dissipando essa onda maligna de tragédias previstas que o aturde tão cedo do dia. Foca o trânsito na avenida enquanto tenta se lembrar de um documentário desses sobre o corpo humano, o qual dizia que a visão ia mudando com o tempo. Nunca mais veremos novamente as mesmas cores e nitidez tal qual antes vimos. Envelhecer, ele conclui, é um pacote sinistro, no qual, quem sabe por sorte, está sempre implícita uma ameaça: antes que acabe, é melhor usar.


***

"Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida de o primeiro ensaio da vida é a própria vida? É o que faz com que a vida pareca sempre esquisso. Mas nem mesmo "esquisso" é a palavra certa, porque esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso em nada, é um esboço sem quadro."

-Milan Kundera

27.1.10

airpane



Fiz um bilhete e coloquei na geladeira. "Alimente o Perry, volto terça. =)". Se der sorte, ele vai ler, mas só um milagre o faria lembrar de todas as manhãs deixar comida pro gato. Apesar da insensibilidade com animais, moramos juntos há alguns meses. O aluguel do apartamento está atrasado. O meu vôo também. Então relevo.

São cinco horas daqui até a-casa-onde-vou-uma-vez-por-ano. Faço segredo do lugar pra não virar um ponto turístico sobre meu passado. Dá tempo de engordar dois quilos com aquela comida em porções geladas. Mantenho a boca ocupada para não ter que conversar muito, trocar telefones, e-mails, falar da minha família que exige que eu termine a faculdade, ranger os dentes por causa do meu chefe careca e fracassado. Pudim de leite é o que sempre peço de entrada. Tem um aspecto leve, levíssimo.

Talvez, no fundo, eu gosto de ir lá. Faz 5 anos, mas ainda perco o fôlego, fico desequilibrada. Não vou por causa de uma promessa, porque não faço promessas desde quando meus pais se separaram. É mais um compromisso. Pra sentir que estou indo adiante.

Quando chego, procuro um hotel diferente do anterior, não porque quero me esconder, mas em busca de um serviço decente. Engraçado, nunca consigo.

Fica perto de uma agência de correios, descendo a rua. Vou andando até chegar numa casa enorme com portões cheios de vinha. Tenho a chave de todas as fechaduras e a do portão é a que mais hesito em abrir. Por isso demoro dias. Dando um tempo até minhas pernas pararem de tremer.

Então depois desse tempo eu volto. Levo um souvenir bonitinho qualquer pro Lewi. Ele pergunta como foi, apenas rio com os olhos e pergunto se o gato está bem.