4.2.10

youth - notes



Ele sobe os três degraus do ônibus que esperou por uns quarenta minutos. Um percurso de vinte minutos o levará ao trabalho, numa sala 3X3m quente e pouco amistosa. Ele imagina se a numerologia saberia explicar, com base nos dígitos do cotidiano, o que tem se passado e o futuro que se esboça. Já sentado na dura cadeira do veículo, ri internamente da gorda bobagem que acabara de pensar.

Entretanto, ele se intrigava com o fato de ter chegado a uma parte da vida em que escolhas e possibilidades vão se esvaindo ou, para amenizar, compactando-se. Por exemplo, ele observa, não irá mais crescer. Nem um centímetro a mais. Para sempre (ao menos até a coluna o trair) a um metro e setenta do chão.

A numerologia não falharia, é verdade, caso previsse, a partir dos dados contidos em seus planos, sonhos e vontades, que haveria de chegar um momento em que ele não poderia deixar de trabalhar. Feito um peixe, que 'nunca' dorme. Por mil razões, parece óbvio - ele argumenta - mas não se trataria mais de uma escolha, mas de uma necessidade inerente. Uma roda de moinho guiada por uma mão invisível. E dessa maneira, escolher mudar de carreira, de país ou de penteado estaria cada vez mais condicionado.

Esfrega as mãos nos olhos, dissipando essa onda maligna de tragédias previstas que o aturde tão cedo do dia. Foca o trânsito na avenida enquanto tenta se lembrar de um documentário desses sobre o corpo humano, o qual dizia que a visão ia mudando com o tempo. Nunca mais veremos novamente as mesmas cores e nitidez tal qual antes vimos. Envelhecer, ele conclui, é um pacote sinistro, no qual, quem sabe por sorte, está sempre implícita uma ameaça: antes que acabe, é melhor usar.


***

"Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida de o primeiro ensaio da vida é a própria vida? É o que faz com que a vida pareca sempre esquisso. Mas nem mesmo "esquisso" é a palavra certa, porque esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso em nada, é um esboço sem quadro."

-Milan Kundera

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