26.9.10

Puzzle

2005, Setembro, Brasil

Conto apenas mentiras. Não são mentiras leves, de pouca imaginação. Que desafio há, senão o do labirinto? Menti, e ainda o faço, sobre minha tristeza, quando esta é apenas a fantasia de um vazio imenso. Farsante, oculto, furtivo.

Minto sobre a ruína que se tornaram meus dias, sobre os quais se esboçam anos, talvez mais. Nem aniversários, nem bailes ou parques de diversões adiantaram, tampouco seu sorriso. São farrapos, comparados à decadência da qual sou hospedeiro.

Caio e sigo ainda. Minto: são camadas e camadas. Vidros trincados. Te amo, embora não te ame, porque é essa a verdade. Não faço por mal, penso. Não sou um monstro. Essa ilusão, na verdade, é só que existe.

-Théo

7.9.10



Infelizmente não é assim que funciona. A partir de agora todas as outras mulheres que conhecer serão, em maior menor medida, uma comparação sua. Enquanto você fala, imagino a tragédia dos próximos dias. Não é só uma quebra de rotina. É uma febre. Febre de ausências. Tem essa mancha nos seus óculos que na verdade é uma rachadura. Enxergo-me duplo no reflexo: meio a meio, uma parte é só desordem e a outra parte é reconstrução.

Então por um momento eu não te ouço, te vejo embaçada. Vou aos poucos me transportando, vendo as coisas como em um filme, ou nos quadros de uma comic. À distância. Não sei quais são minhas falas. Quem as levou? Você diz que era isso que tinha para dizer. Balanço rapidamente com a cabeça, aperto a lingua entre os lábios. Me percebo preenchido com uma enorme necessidade de dizer algo tão confortável quanto um abraço, mas não consigo juntar as palavras a tempo. Impaciente você pega suas coisas, me olha um pouco chateada e dá as costas. Quase a chamei de volta, mas só admirei a certeza dos seus passos.