29.10.07

Degrau

O pequeno do térreo quebrou uma perna e os braços tentando imitar um super herói, ao escalar o prédio vestindo um colant vermelho e azul. Uma custosa aventura que encontrou troféu nos 4 segundos de queda acompanhados de um largo e esquisito sorriso.

O vizinho da frente acaba de pôr fogo no colchão, acidentalmente, com um cigarro vivaz; ele ainda está domindo e as chamas já atearam no lençol. Ainda está dormindo: a fumaça escapa pela janela. Não acordou quando queimava a coleção dos beatles, os livros na estante, nem quando seus cabelos começaram a chamuscar, crepitanto, encolhendo. Preso num triste pesadelo azul-acinzentado-informe, lágrimas não seriam suficentes.

Logo acima, uma família briga por coisas que famílias não deveriam brigar. Cada um vive órfão de uma ideal e benfazeja unidade. Isolados em suas próprias vivências, gritam e acusam-se, e não há amor onde deveveria haver.

Ao lado um bebê dorme acalentado por cuidadosa babá, que tenta abafar uns tantos gritos de mulher com uma música cantada tão próximo quanto possível do ouvido dele. O mundo não entrará naquele berço, o mundo estará apenas naquela canção.

Uma porta está aberta, subindo a escada, no apartamento da esquerda. Ninguém em casa. Talvez, seja melhor assim.

Já entardecia e o vento trouxe um calor úmido que alou-se nos andares, rodopiando aqui e ali, nos cantos enbolorados no concreto, deixando um sussuro de vapor.

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