É estranho quando uma pessoa que antes dividia toda a vida com você muda tanto a tal ponto que, talvez em breve, você não a reconheça. Você a amava, porém tudo que ela tem para dar é um discurso repetitivo sobre os velhos e bons momentos. Agora as ações são descoladas do que ela sente, de um jeito trágico e incoerente. Ela se trai, de certo modo. E você não pode mais se aproximar porque também se trairia.
Encontrei esse cara, ele tinha um rosto familiar - mas onde eu moro todo mundo tem. Estávamos em um dos poucos lugares que vende cerveja gelada de madrugada, depois do toque de recolher. Ele tinha uma voz entorpecida, lenta. Estava chovendo forte. Começamos a falar de pessoas que vão embora. Ele tinha mesmo um ar de abandono. Engraçado. Em outros tempos ele não passaria de um bêbado e eu o ignoraria. Dessa vez, o olhava nos olhos e me senti extremamente cúmplice. Engraçado.
Um amigo dele, que obviamente admirava, acabou mudando muito. Ele não sentia raiva, embora admitisse carregar algum ressentimento. Então, depois de fazer uma crítica social aos valores e ao modo de vida hegemônicos, que bêbados adoram fazer, ele me pediu pra contar uma história sobre mim, alguma coisa que achasse importante dizer naquela hora.
Pensei um pouco e falei sobre uma amiga que estava indo embora e sobre a festa de despedida dela, onde passei menos de 5 minutos - da qual tinha acabado de sair. Contei dessa amizade em particular e sobre como a distância acabou se transformando numa constante com um monte de outras pessoas. Talvez até tenha sido polido demais. Provavelmente, mas quando eu terminei ele assentiu, bebeu um gole de cerveja e apertou minha mão dizendo, bem sério, "um dia todo mundo vai ficar perdido e isso vai dar muita merda". Um comentário bem articulado, dada as circunstâncias.
Quando a chuva acabou de vez a gente se despediu como quem nunca mais vai se ver e acha isso normal Achei prudente. No meu celular tinham algumas mensagens não lidas. Respondi com uma frase de Angels in America. O clichê é absoluto, mas era apenas no que eu conseguia pensar na ocasião.
"O amor verdadeiro não é ambivalente". Eu poderia jurar que essa fala é do meu romance best seller favorito... "Apaixonado pelo Misterioso da Noite", mas não acho que tenha lido.
- Eu não li.
- Devia ler, em vez de passar a vida tentando entender "Democracia nos EUA". É sobre uma mulher branca cujo pai é dono de uma plantação no Sul nos anos antes da Guerra Civil. O nome dela é Margaret e ela está apaixonada pelo escravo número 1 de seu pai. O nome dele é Thaddeus. Ela é casada, mas o seu marido, dono de escravos, tem aids. Tem os órgãos sexuais insuficientemente desenvolvidos. Então, acontece muita coisa quando Margaret e Thaddeus conseguem um tempinho sob a lua da colheita de algodão. Aí, claro, os ianques chegam e libertam os escravos. Os escravos livram-se do velho "papai" e tudo o mais. Ficção histórica. Em certa parte eu me lembro que Margaret e Thaddeus encontram um tempinho para discutir a natureza do amor. O clarão do fogo da plantação reflete no rosto dela. Sabe, como os brancos fazem. E o rosto dele é escuro à noite. E ela diz para ele: "Thaddeus, o amor verdadeiro nunca é ambivalente".
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