
Ela olha pelo retrovisor. O sol nasce tímido. Estranho, não sente sono. Ela pensa no quanto estava enganada. No último livro que leu, um trecho ecoa: "Só podemos salvar a nós mesmos. Não é um trabalho nosso, não é nosso trabalho salvar as pessoas".
Na adolescência, existia o desejo muito comum entre seus amigos de ir embora. Ou de morrer. Ela passa marcha, faz uma curva fechada. Passa a marcha, ultrapassa uma fila de carros. Respira com certo alívio.
Uma música começa a tocar, ela sabe a letra quase toda e se enche de lembranças. Ela namorava um cara, mas ele tinha um histórico de poucos amores e a usava como um bote salva-vidas afetivo. Não que fosse uma pessoa ruim, quem sabe a amasse, mas talvez nem ele mesmo percebesse o quanto apertava seu pescoço pra sobreviver. A música acaba, ela precisa pôr gasolina.
Alguns quilômetros depois, para em uma lanchonete. Quer qualquer coisa doce e pede um energético. Ela pensa em pedir um cigarro, mas o cheiro e o gosto a incomodam. Entretanto, está bem mais interessada no efeito.
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