11.3.08

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A Marília acorda às 7:45. O som do despertador é uma canção de natal, o que não faz nenhuma diferença porque ela sempre acorda de mal humor. Depois do banho ela geralmente volta ao normal. Convivência não é um problema quando você aprende a ceder de vez em quando. A Marília trabalha mesmo nos fins de semana, e em alguns feriados prolongados. É uma espécie de web desingner, e é essa a razão de trabalhar em casa, exceto raras ocasiões.

Acho que vai demorar bastante pra eu entender todos aqueles números e códigos e as combinações de cores que ela me mostra quando eu paro do lado do computador, só pra dar uma espiada.

Sabe aquela campanha de fraldas descartáveis super resistentes, onde o bebê está prestes a cair de um arranha céu e a mãe o segura pela fralda? Achei incrível. Ela que criou o desenho da
logomarca.

Parece realmente um emprego legal. Mas aí eu lembro daquelas olheiras monstruosas e questiono minha opinião, ainda que o salário dela seja de quatro dígitos. Não sei se vale muito à
pena ter tv por assinatura se você não tem tempo pra assistir um filme completo que seja ou tenha um som magnífico de madeira japonesa se usa fones de ouvido ou um fogão de 8 bocas quando só se faz comida pra dois. Não é o que você pode ter, eu penso, mas
o tempo que você pode desfrutar é o que conta. Algumas coisas são mais úteis e eu posso comprar com o dinheiro do lanche.

Marília é minha meio irmã e gosta muito quando eu dedilho uma música lenta no violão. Aprendi violão com o antigo vizinho.

Morar em apartamentos de classe média tem dessas coisas, você conhece gente a todo momento. Todo tipo de gente. Isso é, se você estiver disposto... Não é muito difícil. Conhecer pessoas é
fácil. Só depende do nível de proximidade que você almeja.

O cara que me ensinou a tocar violão tomava sete pílulas tarjas preta por dia; ele só precisava de três. A parte boa é que ele sempre estava muito calmo e eu podia errar quanto fosse
necessário. A parte não tão boa era quando ele estava e não estava comigo... Ao mesmo tempo. Mesmo olhando nos meus olhos ele podia estar no Peru ou no Ceará ou na Índia, dando leite a
ratos sagrados.

Ele também tentou me ensinar sax, mas eu não aceitei porque ele tinha algo assustadoramente bizarro nos cantos da boca: ou algum tipo letal de herpes ou ele estava mascando pólvora.

A história de como eu vim morar com minha meio-irmã e acabei conhecendo o meu vizinho zen, não é longa. Envolve um padrasto ausente e uma fuga no meio da tarde de uma sexta feira. Um
processo judicial relativamente leve e uma pensão mensal. Pode chamar de parricídio moderno, se quiser.

Ás vezes é assim. Você não é um herói, nem o que sua mãe sonhou, nem o que você queria que fosse. Talvez só faça e desfaça sua cama todos os dias, ou esqueça de amarrar os sapatos antes de sair. Não é um bom exemplo, mas não é o pior.