27.1.10

airpane



Fiz um bilhete e coloquei na geladeira. "Alimente o Perry, volto terça. =)". Se der sorte, ele vai ler, mas só um milagre o faria lembrar de todas as manhãs deixar comida pro gato. Apesar da insensibilidade com animais, moramos juntos há alguns meses. O aluguel do apartamento está atrasado. O meu vôo também. Então relevo.

São cinco horas daqui até a-casa-onde-vou-uma-vez-por-ano. Faço segredo do lugar pra não virar um ponto turístico sobre meu passado. Dá tempo de engordar dois quilos com aquela comida em porções geladas. Mantenho a boca ocupada para não ter que conversar muito, trocar telefones, e-mails, falar da minha família que exige que eu termine a faculdade, ranger os dentes por causa do meu chefe careca e fracassado. Pudim de leite é o que sempre peço de entrada. Tem um aspecto leve, levíssimo.

Talvez, no fundo, eu gosto de ir lá. Faz 5 anos, mas ainda perco o fôlego, fico desequilibrada. Não vou por causa de uma promessa, porque não faço promessas desde quando meus pais se separaram. É mais um compromisso. Pra sentir que estou indo adiante.

Quando chego, procuro um hotel diferente do anterior, não porque quero me esconder, mas em busca de um serviço decente. Engraçado, nunca consigo.

Fica perto de uma agência de correios, descendo a rua. Vou andando até chegar numa casa enorme com portões cheios de vinha. Tenho a chave de todas as fechaduras e a do portão é a que mais hesito em abrir. Por isso demoro dias. Dando um tempo até minhas pernas pararem de tremer.

Então depois desse tempo eu volto. Levo um souvenir bonitinho qualquer pro Lewi. Ele pergunta como foi, apenas rio com os olhos e pergunto se o gato está bem.